É a safra agrícola que determina os serviços de transporte no RS?

O Produto Interno Bruto (PIB) trimestral e as divulgações mais recentes das principais pesquisas econômicas conjunturais (Pesquisa Industrial Mensal e Pesquisa Mensal do Comércio-IBGE) fortalecem a ideia de que o setor serviços tornou-se a “menina dos olhos” da economia, tanto no Brasil quanto no RS. Diante da crise sintomática do setor industrial, algumas questões relevantes surgem para discussão: como se dá a inter-relação entre a indústria de transformação e o setor serviços? Como choques na indústria se propagam no Setor Terciário?

O objetivo deste texto é analisar, de maneira pouco formal, a interdependência entre a indústria de transformação e a atividade transportes, comparando as relações entre elas existentes no Brasil e no RS.

A primeira constatação importante do trabalho é: o transporte de cargas apresenta estreita relação com a produção industrial, porém em menor intensidade no RS do que no Brasil. A correlação entre o transporte de carga e a indústria de transformação, no período jan./00-maio/13, foi mais alta no Brasil (0,702) do que no RS (0,559). Mesmo que não implique qualquer relação de causalidade, essa informação é importante e vai de encontro, em parte, a uma ideia bastante arraigada entre aqueles que analisam a economia gaúcha: de que o transporte no RS depende fundamentalmente da safra agrícola. O gráfico mostra que as variações mensais na produção industrial (PIM-RS) têm uma relação direta e contemporânea com as variações no fluxo de veículos pesados nas rodovias pedagiadas (variável utilizada para medir transporte de cargas). Durante a crise de 2009, quando a produção agrícola cresceu e a indústria de transformação apresentou forte queda, o fluxo de veículos pesados nas rodovias gaúchas caiu substancialmente.

Uma segunda constatação importante é que a interdependência entre o transporte de cargas e a produção industrial é bastante heterogênea nas atividades industriais, no RS. Os dados desagregados por atividade industrial sugerem que o movimento de carga nas estradas no RS é mais sensível à produção local nas indústrias de máquinas e equipamentos, produtos de metal exclusive máquinas e equipamentos e veículos automotores. Algumas atividades, como fumo e refino de petróleo e álcool, devido às suas especificidades, têm pouco impacto sobre o transporte por malha rodoviária.

Conclui-se, pois, que uma parte significativa dos efeitos da agropecuária sobre os transportes no RS é determinada não pelo transporte de grãos, mas por via indireta, por meio da indústria de transformação. Desconsiderar a importância da produção industrial sobre os serviços de transporte no RS pode ser um grave equívoco de análise.

É a safra agrícola que determina os serviços de transporte no RS

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