Desafios para o comércio exportador gaúcho

Embora tenha ocorrido uma importante diversificação na pauta de exportações estadual, ainda hoje ela exibe uma grande concentração nas vendas de produtos dos complexos soja, fumo, couros e calçados e carnes de aves. Chama atenção, também, que essas mercadorias são muito distintas quanto ao grau de transformação industrial. De um lado, aparecem os calçados, de outro, as commodities “puras”, o fumo, as carnes de aves e a soja, exportadas com baixo grau de transformação industrial. O preço médio dos calçados pode equivaler a 30 vezes o das 10 principais mercadorias exportadas e, mesmo, a 100 vezes o da soja em grãos. Mas até as commodities “puras apresentam discrepâncias importantes quanto ao preço de exportação, favorecendo a produção intensiva do fumo e das aves e penalizando a extensiva, a da soja.

Já o Brasil exibe uma pauta de exportações bem mais diversificada do que a do Rio Grande do Sul. País de dimensões continentais, com abundantes recursos naturais, suas exportações refletem a diversidade das produções regionais e o crescimento da agropecuária baseada na incorporação recente e acelerada da fronteira agrícola nacional. Isso explica a presença dos produtos da lavoura permanente (café, açúcar, sucos de laranja, frutas tropicais), e da extração mineral (minério de ferro) nas vendas externas, lado a lado com exportações crescentes da lavoura temporária (soja) e da pecuária bovina de corte — perfil que torna o dinamismo das exportações no curto prazo menos dependente das restrições de natureza física e das oscilações do mercado.

Desafios para o comércio exportador gaúcho

Outra diferença, e esta é fundamental entre os dois perfis exportadores, diz respeito às densidades de valor das mercadorias exportadas. O preço médio das exportações do Rio Grande do Sul é muito superior ao nacional. A diferença é maior ainda com relação, por exemplo, ao dos 20 ou 50 primeiros produtos comercializados.

A forte dependência do comércio exportador do Rio Grande do Sul em relação a uns poucos complexos produtivos e a
exportações relativamente densas em valor (fumo, calçados e aves) o tornam muito sensível a variações das condições de produção e de mercado no curto prazo (vejam-se, no ano de 2005, por exemplo, os resultados da quebra dramática da safra da soja sobre as exportações). Mas é possível antever problemas também de sustentabilidade do crescimento do comércio exportador baseado no padrão histórico de crescimento. Fronteira agrícola esgotada para expansão agropecuária, concorrência crescente da agropecuária com a dos cerrados ao norte  e no centro do País, escalas de produção incompatíveis com a produção de commodities, repetidos fatores climáticos adversos a prejudicar a lavoura temporária, anúncios recentes sobre relocalização de plantas industriais de soja, fumo e calçados em outros estados da Federação, concorrência crescente no mercado de calçados com países emergentes, tudo isso aponta o esgotamento do padrão atual de crescimento do comércio exportador. Em meu entender, as alternativas de expansão do setor no longo prazo passariam pela“ descommoditização”, isto é, pelo aumento do valor adicionado às mercadorias atualmente exportadas como matérias-primas, pela diversificação da pauta de exportações em termos de produtos e destino geográfico das vendas e, finalmente, pela questão mais complexa e importante, a busca da inserção do Estado na economia internacional, apoiada crescentemente em vantagens competitivas, isto é, em exportações de mais
alto conteúdo tecnológico.

Compartilhe