Desafios para a política industrial no Rio Grande do Sul

Uma das características mais marcantes do atraso do desenvolvimento da economia gaúcha nas últimas três décadas tem sido o lento crescimento da sua indústria de transformação. Recuperar a participação da indústria na economia nacional e dinamizar o seu crescimento são dois dos maiores objetivos da política industrial do Estado. Ao mesmo tempo em que se observa uma retomada da importância da política industrial e tecnológica exercida na chamada “era de ouro do capitalismo” — 25 anos do pós- -guerra —, observa-se, também, que aquele arcabouço teórico e prático das políticas não é o mesmo. Todos os objetivos, diretrizes, instrumentos e o aparato definidor da política industrial sofreram profundas mudanças em resposta aos novos desafios trazidos pelo século XXI: nova dinâmica macroeconômica internacional, novo paradigma tecnológico, novo papel das firmas e da estrutura industrial.

Na nova dinâmica internacional, a ascensão das economias asiáticas constitui um dos maiores desafios para a formulação de uma estratégia de desenvolvimento industrial no Estado. A direção tomada pelo atual processo de globalização dá à Ásia o papel de potência manufatureira em indústrias de fabricação e montagem de produtos, como eletrônicos, aparelhos elétricos, têxteis, etc. As vantagens sobre as quais se organiza essa especialização global decorrem da grande quantidade de força de trabalho barata, combinada com segmentos de elevada capacitação em engenharia e com mão de obra altamente qualificada. Por outro lado, a escassez relativa de seus recursos naturais frente às necessidades de seu crescimento industrial e de urbanização traduz-se na contínua elevação de preços das matérias-primas e das commodities no mercado internacional. Essa alteração histórica de preços na economia mundial favorece, positivamente, o desempenho de economias com grande participação dos segmentos intensivos em recursos naturais, como as presentes na América Latina e na África, evidenciado nas crescentes quantidades exportadas de minérios, petróleo, energia e produtos agrícolas.

Na economia gaúcha, a existência de uma densidade populacional inferior à dos países da Ásia, que se traduz em uma força de trabalho melhor remunerada, ainda que em um patamar inferior ao dos países avançados, implica uma maior dificuldade competitiva em indústrias intensivas em mão de obra (como a calçadista, por exemplo) contra a dos asiáticos. Essa característica estrutural surge como um obstáculo importante ao desenvolvimento industrial no Estado em bases tradicionais e desafia conquistas alcançadas nas últimas décadas, quais sejam: ter suportado a abertura comercial na década de 90 e ter preservado e revitalizado sua estrutura industrial diversificada com valorização cambial.

Por outro lado, a existente dotação de recursos naturais e de energia na economia gaúcha (e na América Latina em geral) pode dar origem a uma nova estratégia de desenvolvimento industrial, com foco no aproveitamento de oportunidades geradas pela atual (e futura) conjuntura. A abertura de uma “janela de oportunidade” para o desenvolvimento do Estado dá-se pelo desenvolvimento de atividades relacionadas ao processamento e à produção de matérias-primas e de indústrias intensivas em recursos naturais. A inexistência do tradicional problema de tendência de queda de preços das matérias-primas no mercado internacional pode ser convertida em oportunidades para o desenvolvimento tecnológico futuro, elemento-chave para o crescimento. Dessa forma, a política industrial pode ser direcionada para aproveitar essas vantagens dos preços desses produtos, para financiar um esforço tecnológico maior e para investir em capacitação de capital humano, que permita o desenvolvimento de atividades de maior conhecimento e valor agregado.

Essa estratégia não se constitui em aprofundar o processo de especialização regressiva em curso em muitos países da América Latina, mas, sim, em desenvolver e fortalecer a ampla variedade de indústrias e cadeias produtivas, associadas à fabricação de insumos naturais, recicláveis, sintéticos e renováveis. Para isso, é necessário empreender esforços no domínio de operações em indústrias de processamento em grande escala (siderurgia, papel, refinarias, petroquímicos, agroindústrias e outros), passando por especialidades de escala intermediária (química, biotecnologia e nanotecnologia) e de pequena escala (química especial e outros nichos de produtos).

O desenvolvimento de competências nessas indústrias envolve o amplo esforço em educação, pesquisa e inovação, para promover as condições para uma transformação gradual da economia em direção a produtos e indústrias de maior valor agregado. Esses esforços, associados com avanços das ciências biológicas e de novos materiais, pesquisados nas universidades e em parques tecnológicos, têm a vantagem de gerar as condições para um posicionamento mais adequado da economia gaúcha no domínio das tecnologias da próxima revolução tecnológica: biotecnologia, bioeletrônica, nanotecnologia, novos materiais e energia. A política industrial, mais do que recuperar a competitividade da indústria gaúcha, pode dar condições para o seu desenvolvimento futuro alcançar uma trajetória tecnológica própria e permitir uma nova forma de inserção competitiva no comércio internacional.

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