Desaceleração: a marcha do PIB brasileiro

Nos últimos dias de maio, o IBGE divulgou as taxas de crescimento do PIB brasileiro relativas ao primeiro trimestre de 2002. Alguns analistas mostraram surpresa diante da expectativa de que os números pudessem ser ainda piores, principalmente quanto ao desempenho dos primeiros meses de 2002, quando comparado com o do final de 2001. Outros chegaram mesmo a se entusiasmar com o que consideraram o início de uma suave recuperação. Por outro lado, os mais pessimistas discutiram se estávamos vivendo uma recessão, pois as taxas dos últimos dois trimestres foram negativas, quando comparadas com as dos mesmos trimestres dos anos anteriores. Alternativamente, se seguirmos o critério americano para identificar uma recessão, acumularemos dois trimestres consecutivos de taxas negativas, tendo por base o trimestre imediatamente anterior — pela série com ajuste sazonal. Isso não ocorreu em nenhum dos dois últimos trimestres.

Uma medida mais firme — que oscila mais lentamente no tempo — é a que acumula sempre quatro trimestres, constituindo anos móveis e comparando-os com os quatro trimestres imediatamente anteriores. Ela é especialmente útil nesses momentos em que a medida pontual (do trimestre) se presta a interpretações diversas, positivas ou negativas, dependendo do ângulo que se quer privilegiar.

Ao tomarmos, então, as taxas acumuladas em quatro trimestres, o que observamos é uma tendência bem definida de queda das taxas de crescimento do PIB brasileiro desde o início de 2001, quando se esgotou o impulso favorável do período pós-desvalorização cambial. É interessante observarmos que a queda já existia antes mesmo da manifestação da crise energética (segundo trimestre de 2001), mas se acentuou a partir daí, principalmente na indústria e, de forma especial, é claro, nos serviços industriais de utilidade pública (SIUP), segmento produtor de energia elétrica.

A forte queda da indústria a partir do meio do ano passado fez dela o único setor que exibe taxas acumuladas negativas já desde o último trimestre de 2001, destacando-se o SIUP, com taxa negativa desde o trimestre anterior. No acumulado até os primeiros três meses de 2002, o SIUP já tem um desempenho fortemente negativo, com -9,4%, seguido da construção civil, com -5,8%.

O setor serviços vem fazendo uma queda suave ao longo do período analisado, com destaque negativo para o segmento do comércio, o único do setor que gerou queda de PIB até agora (-1,3% nos primeiros três meses de 2002). Contrariando o fraco desempenho da economia, o segmento de comunicações cresceu 10,8% no mesmo período, ainda que a  tendência seja de desaceleração.

A agropecuária, por sua vez, destoa dos outros setores, pois exibe crescimento firme desde o segundo trimestre de 2001, chegando mesmo a taxas em torno de 5% nos últimos dois trimestres.

A partir desse início de 2002, tudo indica que o PIB exiba um desempenho um pouco melhor, podendo-se projetar taxa próxima de 2% para o fechamento do ano, até porque a base de comparação passa a ser mais frágil, ao incluir o período do meio do ano passado, de queda da atividade. Contudo permanecem os constrangimentos da política econômica do Plano Real no que se refere à projeção de qualquer taxa mais expressiva de crescimento. A vulnerabilidade externa continua ditando o ritmo da atividade doméstica, seja pelo difícil equacionamento do financiamento externo, seja, como conseqüência desse aspecto, pela imposição de taxas de juros elevadas, tanto na rolagem da dívida externa quanto da interna.

Desaceleração a marcha do PIB brasileiro

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