Decomposição da mudança da taxa de desocupação no RS

Após 11 resultados negativos consecutivos da taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho, o primeiro trimestre de 2017 foi o primeiro a não apresentar queda, amargurando, contudo, um crescimento nulo. Nesse contexto, a taxa de desocupação do Rio Grande do Sul saltou de 5,4%  no primeiro trimestre de 2014 para 9,1% no mesmo trimestre de 2017, de
acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Flutuações na taxa de desocupação podem ser causadas por mudanças na probabilidade de um ocupado perder a ocupação, de um desocupado encontrar uma ocupação ou de indivíduos saírem e entrarem na força de trabalho — a População Econômica Ativa (PEA). Hall (2005) e Shimer (2007) apresentam uma metodologia que permite utilizar dados longitudinais do mercado de trabalho para decompor variações na taxa de desocupação em dois grupos: inflows (ins) e outflows (outs). Ins representam a probabilidade de um indivíduo ocupado transitar da ocupação para a desocupação, enquanto os outs representam a probabilidade de um indivíduo desocupado flutuar da desocupação para a ocupação. A partir dessas probabilidades, os autores conseguem estimar taxas de desocupação contrafactuais, que simulam como seria a taxa de desocupação se um dos componentes se tivesse mantido constante e o outro tivesse variado. Com essas taxas de desocupação contrafactuais, é possível determinar quais dos componentes foi o mais relevante para a variação da desocupação verificada de fato.

Com o intuito de replicar o exercício para o Rio Grande do Sul, considera-se um modelo onde o indivíduo pode assumir três estados: ocupado, desocupado e fora da PEA. Nesse arcabouço, existem seis probabilidades de transição: (a) da desocupação para a ocupação; (b) da desocupação para fora da PEA; (c) da ocupação para a desocupação; (d) da ocupação para fora da
PEA; (e) de fora da PEA para a desocupação; e (f) de fora da PEA para a ocupação. Os dados utilizados foram obtidos a partir da PNAD contínua de 2012 até o último trimestre de 2016. A PNAD contínua, por se tratar de um painel rotativo, permite observar os domicílios por até cinco trimestres consecutivos.  Os indivíduos dentro dos domicílios foram identificados nos trimestres,
pela variável sexo e idade. A amostra considerada engloba a população de 15 a 70 anos de idade no RS, dividida em três subamostras: mulheres, homens e população total.

Uma vez estimadas as seis taxas de desocupação contrafactuais, estima-se quanto de sua variação está correlacionada com a taxa de desocupação real. Isso é feito dividindo-se a covariância de cada taxa contrafactual e a taxa de desocupação real pela variância da taxa contrafactual. Tal medida informa quais taxas contrafactuais apresentam um caráter cíclico e quais têm características acíclicas. Os coeficientes são apresentados na tabela abaixo, em valor absoluto e termos percentuais.

De acordo com a decomposição, o principal fator que explica o aumento da taxa de desocupação no Rio Grande do Sul entre o primeiro trimestre de 2012 e o mesmo período de 2017 é a taxa de separação (rompimento dos contratos de trabalho), responsável por 36,6% do avanço total. Isso porque a chance de um indivíduo perder ocupação no trimestre seguinte e virar desocupado avançou de 0,7% para 1,20% no período considerado.

O segundo componente mais representativo na explicação do movimento da taxa de desocupação foi a transição “de fora da PEA para a desocupação”, com 32,4%. A probabilidade de essa transição ocorrer de um trimestre para o outro era  relativamente estável até o último trimestre de 2014. A partir de então, a probabilidade passou de 1,4% no último trimestre de 2014 para 2,6% no segundo trimestre de 2016.
Intuitivamente, parece natural que a taxa de separação fosse a maior responsável pelo aumento da desocupação. Durante uma recessão, é esperado que as demissões aumentem. Surpreendente é que, em segundo lugar, esteja o componente associado à entrada das pessoas não economicamente ativas para a situação de desocupação.

Parte do fenômeno pode ser explicado, na medida em que, por exemplo, chefes de família perdem a ocupação, e outros membros que estavam fora da força de trabalho precisam, agora, ofertar sua mão de obra no mercado. De fato, a explicação parece plausível quando se observam as contribuições de cada componente para homens e para mulheres. O fator que mais contribuiu para a flutuação da desocupação dos homens foi a taxa de separação. O mesmo, no entanto, não pode ser dito para as mulheres. Para elas, o maior fator na variação da desocupação é a dinâmica “de fora da PEA para a desocupação”, com 32,6%. Tal diferença é um indício de que a crise pode ter mudado a alocação intrafamiliar da força de trabalho. No entanto, trata-se apenas de um indício, uma vez que as causas para tal fenômeno continuam elusivas e, por isso, exigem uma  investigação mais profunda.

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