Da crise financeira ao “novo normal”

Após a eclosão da crise financeira em 2007, a economia mundial transitou de um ciclo de crescimento robusto para o atual período de grandes dificuldades, com arrefecimento do crescimento e do comércio, enquanto muitos países — principalmente os desenvolvidos — apresentaram recessão e taxas de desemprego elevadas, a despeito das diversas medidas de salvamento empreendidas para contornar tal situação. As previsões de recuperação consistente do Produto Interno Bruto (PIB) têm sido, ano após ano, revisadas para baixo e adiadas. Passados os piores momentos da crise, vivemos hoje o que se convencionou chamar de “grande recessão” — ou “novo normal”, conforme Cristine Lagarde, do Fundo Monetário Internacional (FMI) —, cuja realidade é a expansão modesta da produção e do emprego no mundo.

A análise dos dados globais justifica a cunhagem do termo “grande recessão”. O produto mundial cresceu, em 2007-13, a metade do que cresceu em 2001-07, desacelerando-se em todas as regiões. As exportações, que, medidas em valor, avançaram 126,3% em 2001-07 — fruto, em grande parte, da elevação dos preços das commodities —, cresceram apenas 28,4% entre 2007-13.

Na América Latina (AL), o Brasil, que obteve um dos melhores desempenhos no imediato pós-crise, desde 2011 vê o seu produto desacelerar, crescendo menos do que o de grande parte dos vizinhos. Ainda que existam grandes diferenças estruturais entre a economia brasileira e a dos demais países da AL, há em comum a dependência, em diferentes graus, das economias da região em relação ao dinamismo do mercado de commodities. Esta assume particular relevância nas nações com maior especialização produtiva, uma vez que, nesses casos, o crescimento do mercado interno se encontra exposto ao desempenho das receitas oriundas das exportações. De modo geral, a valorização do preço das commoditties esteve no cerne do bom desempenho da região no novo século, e a estagnação (ou queda) desses preços induz à perspectiva de uma desaceleração mais acentuada ao longo de 2015.

No mundo desenvolvido, a boa notícia é que os EUA voltaram a crescer nos últimos anos. Trata-se, porém, da recuperação mais lenta desde a Grande Depressão. A diminuição da taxa de desemprego deu-se com estagnação dos salários e com maior criação de ocupações precárias e/ou em tempo parcial. As exportações dos EUA corresponderam, em 2013, a 8,88% das exportações mundiais, parcela superior à alcançada em 2007 (8,59%), mas ainda inferior ao que prevalecia nos anos 90 (11,59%). Com tais resultados, reduz-se a possibilidade de que a nação mais poderosa do planeta funcione como locomotiva global, contribuindo pouco para a elevação da média de crescimento do PIB mundial.

Na Zona do Euro, região mais atingida pela crise, a situação segue difícil: o desemprego estabilizou-se em patamares elevados, e o produto mantém-se abaixo do nível pré-crise em grande parte dos países, podendo novamente vir a cair de maneira generalizada, ao mesmo tempo em que aumenta o risco de deflação. Situação semelhante é vivenciada no Japão, onde nem o robusto aumento nos gastos do Governo conseguiu alavancar o produto. Após crescer 9,9% entre 2001-07, o produto japonês expandiu-se apenas 0,3% entre 2007-13, enquanto os índices de preços seguem beirando a deflação.

Na Ásia, região mais dinâmica do mundo, a China afirma-se como o polo produtivo global e segue aumentando a sua parcela no total das exportações mundiais, que passaram de 1,83% em 1990 para 12,27% em 2013. Porém espera-se uma desaceleração das taxas de crescimento do PIB do País para cerca de 7% a.a. Esse movimento, ao afetar a demanda e os preços das commoditties, pode impactar negativamente o câmbio, as contas do Governo e as contas externas dos países exportadores desses produtos, sobretudo os emergentes em geral e a AL em particular, conforme mencionado anteriormente.

O desempenho econômico global pós 2007 é o pior desde a década de 90. As condições externas voltaram a se deteriorar, enquanto a economia mundial ainda não esboçou uma recuperação plena e sustentada da crise. O “novo normal” apresenta-se como um período de intensas dificuldades e incertezas que comprometem o desempenho econômico global. No Brasil, o ajuste fiscal e monetário desenhado pelo Governo não permite otimismo para com o desempenho em 2015.

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