Crise e estagnação da produção industrial brasileira

Apesar do otimismo presente em algumas análises sobre o desempenho industrial brasileiro de 2017 — as quais identificam o início da recuperação da produção e a saída da crise brasileira —, o que os dados mostram para os seis primeiros meses do ano é um modesto crescimento da produção industrial de 0,5% em relação ao mesmo período de 2016. Segundo os dados da Produção Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse desempenho foi resultado de um crescimento de 6,0% na produção da indústria extrativa mineral, enquanto o conjunto da indústria de transformação (IT) apresentou uma queda de 0,3%.

Essa aparente recuperação precisa ser interpretada dentro do contexto da produção industrial dos últimos anos, bem como dos demais condicionantes da atual conjuntura econômica nacional. Assim, quando se analisa o comportamento da indústria no período 2014-16, verifica-se que a IT acumulou uma queda de 18,8% no seu volume de produção. Tal queda colocou o nível da produção brasileira abaixo do verificado em 2004. Assim, se, por um lado, é verdadeiro que o desempenho industrial em 2017 não está demonstrando a mesma queda na produção que as verificadas nos anos anteriores, seria impreciso considerar que esse fenômeno estaria caracterizando uma recuperação da indústria. O que se tem verificado, nesse primeiro semestre de 2017, é que a produção industrial se encontra estagnada em um patamar extremamente baixo, quando comparada com o volume alcançado em anos anteriores.

Outro aspecto relativo ao desempenho industrial em 2017 é que, conforme pode ser observado no gráfico, as taxas de variação da produção tem sido muito desiguais entre os diversos setores que compõem a IT. As principais atividades da IT que apresentaram desempenho positivo no primeiro semestre de 2017 foram aquelas com forte relações comerciais com o mercado externo, ou que tiveram um crescimento no quantum das exportações, no primeiro semestre do ano. Esses são os casos, por exemplo, de fabricação de celulose e produtos de papel (2,2%), fabricação de produtos de couro e calçados (2,6%), produtos do fumo (15,6%), fabricação de veículos automotores (11,7%), máquinas e equipamentos (2,4%) e produtos de borracha e plástico (1,7%). Segundo os dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), embora o quantum do total das exportações no primeiro semestre do ano tenha crescido apenas 1,7%, para o caso dos setores produtores de bens de consumo duráveis essa taxa foi de 41,1%. Cabe destaque, também, à fabricação de equipamentos de informática e produtos eletrônicos, que, embora tenha pequena participação no Valor da Transformação Industrial (VTI), apresentou um crescimento de 18,6%.

Por outro lado, observa-se que alguns setores que já vinham de quedas acentuadas no período 2014-16 continuam apresentando a mesma tendência em 2017. Esses são os casos de fabricação de produtos alimentícios (-2,2%), fabricação de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis (-7,6%), produtos farmacêuticos (-6,8%), fabricação de outros produtos químicos (-3,7%), produtos de minerais não metálicos (-3,9%), fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-7,4%), outros equipamentos de transporte (-11,6%) e fabricação de móveis (-4,4%). Em conjunto, esses setores representam mais de 50,0% do VTI da IT brasileira.

Em função dos níveis extremamente baixos de produção, uma plena recuperação da indústria brasileira somente ficará caracterizada quando os setores apresentarem uma tendência de crescimento que inclua os setores vinculados tanto ao mercado externo quanto ao interno e que abarquem um percentual substancial do VTI. No entanto, isso também não tem sido observado. Quando se analisam as taxas mensais de variação da produção, observa-se que as mesmas têm apresentado oscilações positivas e negativas ao longo do ano. Assim, embora, do ponto de vista estatístico, já se possa observar algumas taxas positivas de crescimento, localizadas em alguns setores, a indústria de transformação precisaria crescer cerca de 20,0% para retomar a produção de 2008, ou seja, de oito anos atrás.

Ao longo dos últimos anos, esse desempenho tem-se refletido no aumento do desemprego industrial, no reduzido nível de utilização da capacidade industrial e na consequente queda nos investimentos. Elevada capacidade ociosa, baixos níveis de investimento e depreciação de máquinas, equipamentos e instalações e quebra nas cadeias de relações interindustriais deverão ter impacto negativo no crescimento da produtividade industrial e, consequentemente, da sua inserção internacional. Esse conjunto de fatores poderá comprometer o desempenho do setor no longo prazo.

A análise precedente, portanto, parece sinalizar um agravamento da estrutura industrial no País. A profunda recessão, o fechamento de empresas e a quebra de cadeias domésticas de produção industrial, associadas com a ascensão das economias asiáticas e o surgimento de importantes inovações, acabam deixando o parque industrial brasileiro na retaguarda em termos tecnológicos, além de aumentar a sua dependência de produtos importados, tanto de matérias-primas como de produtos para o consumo final.

Em um contexto de elevadas taxas de desemprego, queda no rendimento médio real do trabalhador, crise fiscal com redução dos investimentos públicos e programas sociais, com baixos incentivos aos investimentos privados, a única possível fonte de demanda capaz de oxigenar a produção industrial serão as exportações. No entanto, esta última ainda depende da conquista e da manutenção de mercados, da existência de uma taxa de câmbio favorável e do crescimento da demanda externa. Portanto, não existem, em um horizonte próximo, motivos para estabelecer uma sólida recuperação da produção industrial. Esses são alguns dos desafios para o desenvolvimento industrial brasileiro, os quais vão muito além da atual estagnação.

Gráfico do drope 3

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