Crescimento desigual das atividades industriais

A indústria de transformação iniciou 2014 com uma queda, nos cinco primeiros meses do ano, de 2,4% na sua produção física, em relação ao mesmo período do ano anterior. Tal desempenho colocou mais combustível nas preocupações dos setores empresariais, acadêmicos e do Governo com os rumos da indústria nacional. De fato, isso representa a continuidade da estagnação da produção industrial, que teve início com a crise econômica mundial, em 2008. Tal fato fica mais evidente quando se observa que, entre 2003 e 2008, a produção física da indústria brasileira havia crescido 24,3%, enquanto, nos cinco anos que se seguiram, essa taxa caiu para 3,0%. Esse fraco desempenho industrial acentuou o declínio da participação da indústria de transformação no PIB brasileiro, a qual chegou ao patamar de 11,0%, o menor percentual histórico já registrado.

Embora a queda na produção física tenha atingido a grande maioria das atividades industriais nos dois últimos anos, analisando-se o seu crescimento por um período mais longo, observa-se que as mesmas têm apresentado um desempenho bem diferenciado (Gráfico). Assim, enquanto a indústria de transformação, entre 2002 e 2013, apresentou um crescimento médio anual de 2,3%, as atividades produtoras de veículos automotores, reboque e carrocerias e de outros equipamentos de transporte cresceram a taxas médias anuais superiores a 6,0%. Nessa mesma tendência, convém destacar as atividades de fabricação de máquinas e equipamentos e de fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos, as quais apresentaram um crescimento, no período, de 3,8% a.a. Tais atividades, por possuírem diversos encadeamentos com os demais ramos da indústria, bem como com o setor serviços, apresentam fortes efeitos multiplicadores sobre toda a atividade econômica. Do ponto de vista negativo, convém destacar as atividades de artigos do vestuário; têxteis; e de artefatos de couro e calçados, as quais, em virtude da perda de competitividade e da forte concorrência chinesa, apresentaram taxas negativas de crescimento no período em questão.

Os dados mencionados parecem explicitar a indissociável vinculação do desempenho industrial brasileiro em relação à economia mundial, tanto no que se refere ao impacto da crise econômica como também da concorrência internacional. Esse desempenho diferenciado das atividades industriais também acaba por impactar a balança comercial brasileira, uma vez que as atividades que têm apresentado maior crescimento, além de estarem com dificuldades de aumentar o seu mercado externo, são altamente dependentes da importação de peças e matérias-primas. Por fim, os dados parecem apontar uma significativa alteração na estrutura industrial brasileira em direção a atividades com maior intensidade tecnológica.

A aceleração do crescimento econômico brasileiro passa, necessariamente, por uma retomada do crescimento da produção industrial a taxas mais elevadas. Nesse sentido, as políticas de curto prazo que o Governo brasileiro tem adotado, tais como as isenções tributárias provisórias, o Programa de Sustentação do Investimento e o Reintegra, podem ter um impacto positivo sobre a lucratividade da indústria. No entanto, os ganhos de competitividade internacional e o retorno do crescimento industrial irão depender muito mais da capacidade de inovação do setor empresarial, de uma política cambial mais favorável à indústria, da redução da taxa de juros e da capacidade do Governo de estimular investimentos privados no longo prazo.

Crescimento desigual das atividades industriais

 

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