Crédito e recessão na economia do Rio Grande do Sul

Desde o ano passado, o Banco Central tem disponibilizado dados trimestrais regionalizados do Sistema de Informações de Crédito (SCR), de forma retroativa a junho de 2014, contendo várias informações por modalidade de crédito.

Uma das aplicações é observar as relações do crédito com o processo recessivo nacional. Como o volume de crédito responde ao comportamento das atividades econômicas, do mercado de trabalho, dos preços e de decisões de política econômica, seu desempenho é resultado da interação dessas outras variáveis econômicas. A mesma análise pode ser aplicada aos estados, guardadas as devidas precauções, como os maiores vazamentos em uma economia subnacional.

Neste trabalho, o saldo das modalidades de crédito no Rio Grande do Sul foi reagregado, similarmente aos componentes da despesa do Produto Interno Bruto (PIB), e deflacionado pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), com vistas a se ter uma noção aproximada de poder de compra real da variação de seus saldos. Como gastos das pessoas físicas, foram reunidas as modalidades de empréstimo que financiariam parte do consumo das famílias. Como capital de giro das pessoas jurídicas, os financiamentos que seriam utilizados para financiar estoques e folha de pagamento em momentos de descasamento do fluxo de receitas e despesas das firmas. Sob a rubrica agropecuária, juntaram-se os créditos rurais e agroindustriais, tanto das pessoas físicas quanto das pessoas jurídicas, devido a características específicas da atividade, como o fato de o maior volume das operações ser das pessoas físicas. Como investimento das pessoas jurídicas, estão as modalidades que financiam capital fixo de pessoas jurídicas (obras e equipamentos), tanto públicas como privadas. Por fim, a conta habitacional refere-se aos saldos do crédito imobiliário para as famílias.

Com exceção do habitacional, todos os saldos diminuíram em termos reais, entre dezembro de 2014 e março de 2016. Entretanto, o capital de giro começou a cair, e o gasto corrente ficou quase estável durante o segundo semestre de 2014. A agropecuária caiu de dezembro de 2014 para março de 2015 e, desde então, vem-se mantendo estável. O investimento ficou estável no primeiro semestre de 2015, mas, no segundo, passou a cair acentuadamente. O habitacional desacelerou seu crescimento em 2014, tendo uma oscilação que aparenta ser normal no primeiro trimestre de 2016.

A queda no capital de giro das empresas reflete o fato de que a desaceleração da indústria de transformação e a da construção iniciaram já no primeiro trimestre de 2014 e continuaram em queda durante todo o período. O comportamento dos empréstimos para pessoas físicas pode ser associado à queda da massa de rendimentos reais, que já foi observada desde 2014, mas que se aprofunda com o aumento dos preços da energia elétrica e dos combustíveis, à desvalorização cambial e ao aumento do desemprego. Em 2015, a agropecuária teve condições mais estáveis e um excelente desempenho, o que pode explicar um volume de empréstimos reais menor devido à maior capitalização do setor. No caso do investimento, a parcela privada reagiu à deterioração das expectativas de crescimento e ao encarecimento das fontes de financiamento. Já o investimento do setor público respondeu à eliminação das margens de endividamento derivada de problemas fiscais. O habitacional reduziu menos devido à característica de ter amortizações pequenas quando comparadas ao valor total do crédito, o que torna os ajustes no estoque mais lentos. De qualquer forma, deixou de impulsionar novas edificações, ficando mais restrito à transferência de unidades já construídas.

Com a elevação da taxa básica de juros pelo Banco Central a partir de janeiro de 2015, junto com o aumento da inadimplência, as taxas de juros de todas as modalidades de crédito, com recursos tanto livres como direcionados, foram elevadas. A elevação foi maior para as pessoas físicas, o que implica uma redução maior no poder de compra real do crédito. A desalavancagem das empresas, voluntariamente ou não, resulta da necessidade de ajustar o capital ao nível de produção. O que os dados indicam é que, sem a retomada da atividade e dos rendimentos reais, o crédito não voltará a subir. Assim, uma possível redução das taxas de juros poderia auxiliar em um processo de retomada da atividade econômica, mas não seria suficiente para revertê-la, dadas as características da recessão.

Estoque das operações de crédito no Rio Grande do Sul — jun./14-mar./16

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