Crédito ao consumidor nos EUA: ainda abalado

O capitalismo é crédito. Acreditar é necessário, para que as promessas de ontem se tornem a realidade de hoje, e novas promessas possam ser contratadas, gestando a realidade de amanhã. Assim roda a criação de riqueza (tanto real quanto fictícia), indefinidamente, até que o ciclo de confiança no futuro se rompa. De alguma forma, a crise financeira que se abateu sobre os Estados Unidos ainda em agosto de 2007 e que se tornou crise econômica no segundo semestre de 2008 destruiu a confiança necessária para a continuidade do ciclo econômico ascensional dinamizado pela expansão do crédito.

É importante ressaltar-se que as fusões de bancos criaram um sistema financeiro ainda mais concentrado e, portanto, com prevalência ainda maior do adágio too big to fail. Ainda que o dinheiro esteja disponível para as instituições financeiras praticamente sem custo, que o Estado norte-americano tenha injetado o capital necessário para a sobrevivência “comercial” de instituições tecnicamente insolventes, o crédito ao consumidor não tem mostrado sinais de recuperação, apesar de a economia dar mostras de estancamento do agravamento do quadro depressivo. Em setembro de 2009, o crédito total ao consumidor apresentou uma queda de 7,2% frente ao mês anterior (taxa anualizada e dessazonalizada). E, o que é ainda pior, o chamado crédito de “rolagem” (revolving), que inclui essencialmente as despesas com cartões de crédito, é aquele que tem apresentado o pior resultado (queda de 13,2% em setembro frente a agosto). As taxas de juros aos consumidores não têm apresentado a queda que poderia ser esperada, em função do reduzido custo do dinheiro às instituições financeiras, e o consumo de bens duráveis e de imóveis tem sido estimulado apenas por programas especiais de curta duração e de elevado custo fiscal, do qual são exemplos os programas implementados e já terminados que concediam incentivos à troca de automóveis antigos por novos e à compra de imóveis por famílias que ainda não tivessem sido proprietárias.

Mesmo os agentes que possuem bons credit ratings parecem pouco dispostos a gastar em um momento em que a taxa de desemprego da economia norte-americana se encontra em 10,2%, a mais elevada desde 1983. Uma economia onde a riqueza financeira declinou a partir da queda nos preços dos imóveis e onde grande parte das necessidades da população se encontra atendida pelo estoque de bens disponível não tem parecido o melhor ambiente ao consumidor mais abastado para iniciar um novo ciclo de endividamento.

A não retomada do crédito é um dos principais indicadores quanto às perspectivas de uma economia onde 70% do produto é consumo. Não surpreendentemente, houve uma revisão das perspectivas de crescimento do PIB no terceiro trimestre de 3,5% para 2,8% (taxa anualizada frente ao trimestre anterior). Pode ser que o pior tenha passado (embora a lista de instituições financeiras com problemas já atinja mais de 552 bancos de pequeno ou médio portes, com 124 falências no ano), mas, ao menos para os Estados Unidos, ainda não há uma perspectiva de retomada consistente da atividade econômica.

Crédito ao consumidor nos EUA ainda abalado

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