Cooperação para inovar nas empresas gaúchas: avanços recentes frente aos desafios atuais

A última e recém-lançada Pesquisa de Inovação (Pintec), organizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), traz importantes informações sobre as empresas brasileiras, por meio de diversos indicadores, a respeito das inovações de produto, de processo, organizacionais e de marketing. Dentre os dados coletados no triênio 2012-14, merecem atenção os referentes às relações de cooperação para inovação entre empresas e destas com outras organizações, com ou sem o objetivo de obter benefícios econômicos imediatos. Essa importância é apontada pela literatura internacional vinculada ao campo dos estudos de inovação, ressaltando como muitas das principais inovações originam-se de processos cooperativos dentro das firmas (entre funcionários, departamentos, etc.) e/ou com outras organizações (empresas concorrentes, fornecedores, clientes, governos, universidades, instituições de pesquisa, etc.).

Ao longo de suas seis edições, abrangendo o período de 1998 a 2014, a Pintec vem mostrando informações interessantes com respeito às empresas das indústrias extrativa e de transformação do Brasil e do Estado do RS, como a que consolida o RS como líder, no País, em termos de cooperação em projetos de pesquisa e desenvolvimento e de inovação em parceria com outras organizações. Como se pode ver na Figura 1, em todo esse tempo, o percentual de empresas que cooperaram foi maior no RS do que em todo o Brasil, com exceção do triênio 2009-11. É importante destacar que, nesta última edição da Pintec (2012-14), o RS alcançou sua maior taxa de cooperação, de 19,7%, o que equivale, em números absolutos, a 915 firmas, juntamente com um aumento apreciável em relação ao período anterior (2009-11), quando apresentava apenas 9,3% (um pouco mais de 10 pontos percentuais de aumento, mais que duplicou). Além disso, na última edição da Pintec, na comparação com os principais estados do País, o RS novamente assumiu uma posição de destaque, seguido de perto por Minas Gerais, Rio de Janeiro, ambos com aproximadamente 17%, São Paulo (15,4%) e as outras unidades da Região Sul, Paraná (14,1%) e Santa Catarina (12,6%).

Olhando somente o Rio Grande do Sul (Figura 2), no último período, percebe-se que os principais parceiros das empresas inovadoras foram os fornecedores e os clientes ou consumidores, para, respectivamente, 82% e 77% dessas empresas, e, logo após, as instituições de testes, ensaios e certificações, com 58%. A liderança dos dois primeiros — fornecedores e clientes — é geralmente encontrada em outros países, o que enfatiza a relevância desses atores para as empresas. Outro dado importante é que, de maneira geral, as taxas de cooperação gaúchas por tipo de parceiro eram um pouco superiores às do País, à exceção de concorrentes e de outras empresas do grupo.

Apesar do valor que todos os tipos de parceria possuem para as atividades de inovação, há um que é especialmente relevante para a geração das inovações mais radicais: universidades e institutos de pesquisa. Efetivamente, as regiões e os países mais inovadores apresentam frequentemente importantes projetos de inovação vinculados ao trabalho conjunto de empresas com instituições de pesquisa e/ou de ensino superior. Nesse quesito, o RS também exibe uma situação de realce no cenário nacional. Acompanhando as tendências gerais das taxas globais de cooperação, as percentagens de empresas que têm parcerias com essas instituições são, em geral, maiores no RS do que no País, ao longo de todo o período das pesquisas da Pintec, excluindo o triênio 2009-11 (Figura 3). Verifica-se, igualmente, que o Estado apresentou, no último período (2012-14), o maior percentual da série, de 5,2%.

Apesar desses dados positivos, deve-se salientar que todos esses percentuais estão muito abaixo dos de nações líderes em inovação. Por exemplo, no ano de 2012, na União Europeia (UE), em torno de 13% das firmas inovadoras cooperaram com instituições de ensino superior, enquanto, na Alemanha, chegou-se aos 14,3% e, no Reino Unido, a quase 20% — dados do órgão de estatística oficial da UE (Eurostat) —, alcançando, portanto, valores bem superiores aos brasileiros e gaúchos, sem considerar a qualidade e a densidade das parcerias.

Embora os números da Pintec indiquem uma tendência de aumento dos índices e de uma superioridade do RS no Brasil na relação cooperação-inovação de suas empresas, essa condição favorável pode ser influenciada negativamente, em 2015 e 2016, no Estado e no País, pela atual crise econômica, logo após a última edição da pesquisa (2012-14). Além disso, os patamares dessas cooperações são substancialmente inferiores aos das principais nações em desenvolvimento de inovações. Portanto, as firmas gaúchas e brasileiras têm muito espaço para avançar em atividades colaborativas com outras organizações, principalmente com universidades e instituições de pesquisa. À luz da literatura dos estudos de políticas de ciência, tecnologia e inovação, uma leitura possível desse quadro contraditório e preocupante (crise e cooperação no RS e no Brasil, em comparação a outros países) é a de que o aumento da cooperação discutido neste texto se configura como uma possibilidade de enfrentamento à crise atual e à persistente baixa capacidade de inovar das empresas.

Como citar:

TARTARUGA, Iván Gerardo Peyré. Cooperação para inovar nas empresas gaúchas: avanços recentes frente aos desafios atuais Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/cooperacao-para-inovar-nas-empresas-gauchas-avancos-recentes-frente-aos-desafios-atuais/>. Acesso em: 21 de outubro de 2017.

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