Consumo e produção: novamente andando juntos?

Durante os primeiros anos da década passada, o comércio varejista cresceu a taxas inferiores às da indústria brasileira. Essa diferença foi resultado, por um lado, de uma política econômica restritiva, associada ao cenário externo adverso, que se traduzia na escassez de divisas estrangeiras e impunha à economia um ritmo de crescimento do tipo stop and go, e, por outro, de uma taxa de câmbio em processo de desvalorização. Crédito restrito e juros altos inibiram a expansão do consumo doméstico. E a forte demanda externa e o real desvalorizado incentivaram as exportações industriais

A partir de 2004-05, as condições econômicas mudaram. Medidas como aumentos reais do salário mínimo, expansão do Programa Bolsa Família, aumento do crédito, reduções temporárias de impostos sobre o consumo e diminuição das taxas de juros obtiveram sucesso em expandir o consumo. Desde o quarto trimestre de 2003, esse item da demanda interna cresce ininterruptamente.

Na metade da década, também teve início o processo de valorização da taxa de câmbio. Como consequência, os produtos industrializados perderam competitividade no exterior, ao mesmo tempo em que a importação de bens de consumo era facilitada pelo barateamento do dólar. A maior competição à que a indústria nacional foi exposta, tanto no mercado externo quanto no doméstico, fez com que suas taxas de crescimento passassem a minguar.

O aumento do consumo passou, portanto, a ser suprido, em grande parte, pelas importações crescentes. Ao mesmo tempo, a conta externa era fechada pelas exportações de commodities agrícolas e minerais, cujos preços estavam em alta no mercado internacional, e pelo forte ingresso de capitais na conta financeira. Nesse contexto, a taxa de câmbio permanecia valorizada, apesar da deterioração crescente do déficit em transações correntes.

Esse arranjo chegou ao extremo durante a crise que seseguiu ao estouro da “bolha imobiliária” norte-americana em 2008. A produção industrial nacional despencou, como resultado da queda abrupta da demanda internacional. Visando manter a demanda interna aquecida e garantir o prosseguimento do crescimento econômico, o Governo aprofundou as medidas creditícias e fiscais de estímulo ao consumo. Deu resultado. O volume de vendas do comércio logo voltou a crescer às taxas anteriores.

A produção industrial demorou mais para se recuperar. Apenas no começo de 2010, o nível de produção de setembro de 2008 foi novamente alcançado. A partir desse ponto, entretanto, o setor parou. Não conseguiu mais crescer em meio às condições externas ruins, de baixa demanda nos países desenvolvidos, e de uma taxa de câmbio ainda apreciada. Como resultado, o diferencial de crescimento entre o comércio e a indústria aumentou.

Nos últimos meses, esse cenário sofreu algumas alterações. Pelo lado do consumo, já se discutem os limites do crescimento do comércio como decorrência de estímulos creditícios e fiscais, tendo em vista o aumento da inadimplência em alguns segmentos (notadamente o de crédito para compra de automóveis) e algumas evidências de saturação no consumo de bens duráveis. Pelo lado da indústria, a principal notícia é a desvalorização da moeda brasileira, que se soma às medidas de política industrial e à redução dos juros. Uma expansão marginal menor do comércio e uma retomada da produção industrial, voltada para atender parcelas do mercado interno antes ocupadas por importações, podem ser o resultado do novo patamar cambial mais depreciado.

Consumo e produção novamente andando juntos

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