Consumo e investimento: avaliando as previsões do Banco Central do Brasil para o ano de 2017

Em artigo recente publicado nesta Carta de Conjuntura, foi observado que nem a rápida queda da taxa de inflação nem o ritmo lento da recuperação do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) podem ser considerados movimentos razoavelmente previstos pelo Banco Central do Brasil (BCB). De modo geral, tem sido recorrente, pelo menos desde o segundo semestre de 2015, um estado geral de frustração das expectativas positivas que foram formadas sobre o comportamento da atividade econômica, seja porque a recessão foi mais severa do que antes se anunciava, seja pela fraca intensidade da recuperação que até agora se apresenta, comparada à que havia sido projetada.

Considerando os dados já disponíveis para o ano de 2017, uma sequência de dois trimestres de crescimento positivo do PIB foi finalmente registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Elementos completamente distintos explicam, entretanto, o resultado de cada trimestre. Entre janeiro e março, registrou-se um expressivo crescimento de 1,02% na produção comparado ao trimestre anterior, mas sem contrapartida nos componentes da demanda efetiva confirmada (conforme Summa, Lara, Serrano (2017)), razão pela qual o resultado foi interpretado como um movimento de variação indesejada de estoques, associado a aspectos conjunturais dos setores produtores de commodities. Com relação ao segundo trimestre, o crescimento de apenas 0,25% registrado na produção foi efetivamente acompanhado de crescimento dos componentes da demanda agregada. Foi bastante positivo, em especial, o crescimento de 1,36% no consumo das famílias. Dessa forma, embora haja uma contração de 1,38%, ao considerar a variação acumulada do PIB dos últimos quatro trimestres, já não se repetiu no primeiro semestre de 2017 o quadro recessivo de grande intensidade do biênio 2015-16.

Para uma análise objetiva a respeito das oscilações da atividade econômica, não é suficiente avaliar apenas os resultados agregados. Explicitar a lógica interna da projetada recuperação exige considerar o comportamento dos componentes mais importantes envolvidos. Nesse particular, também fica clara a dificuldade do BCB em avaliar prospectivamente a conjuntura brasileira. Na tabela a seguir, apresentam-se as taxas previstas de crescimento para 2017, relativas ao consumo das famílias, à formação bruta de capital fixo (FBKF) e ao PIB, conforme foram divulgadas nos sucessivos Relatórios de Inflação, começando pelo de setembro de 2016 até o mais recente, de setembro de 2017.

Algumas observações importantes podem ser feitas as partir destas informações. No que diz respeito ao consumo das famílias, a projeção de crescimento de 0,8% de setembro de 2016 foi revisada para baixo até junho de 2017, quando passou a ser zero. No último relatório divulgado, houve uma revisão para cima, e o crescimento projetado passou a ser de 0,4%. Com relação às projeções para a FBKF, que reflete o comportamento do investimento, a revisão para baixo foi contínua e muito contundente. No último registro, o BCB prevê uma contração de 3,2% para o ano de 2017, ao passo que, em setembro de 2016, projetava crescimento de 4% para esta variável.

Avaliado apenas sob o prisma da consistência interna entre o consumo e o investimento, o movimento de revisão das previsões realizado pelo BCB entre setembro de 2016 e junho de 2017 faz certo sentido. Assumindo-se que o investimento seja, em larga medida, induzido pela necessidade de ajustar a capacidade produtiva à demanda existente e projetada, a revisão para baixo do crescimento do consumo das famílias sinaliza um menor ritmo de crescimento do PIB e dos mercados para o setor privado. Esse cenário implica menor disposição das empresas para realizar investimentos, coerente, portanto, com a revisão para baixo também do crescimento da FBKF. Essa aparente consistência foi rompida, entretanto, na última revisão realizada. Ao mesmo tempo em que elevou o crescimento projetado do consumo e do PIB, o BCB intensificou a previsão de queda dos gastos de investimento.

Em virtude da ainda elevada ociosidade da capacidade produtiva e das perspectivas ainda frágeis do crescimento futuro da demanda agregada em geral, não parece realmente algo fora do razoável esperar por uma queda expressiva da FBKF em 2017, conforme consta da última previsão do BCB. Esse mesmo critério tem sido utilizado em análises independentes publicadas nesta Carta de Conjuntura (como em Lara (2016) e Lara (2017)), apontando que era, de fato, muito improvável esperar por qualquer recuperação do investimento ao longo do ano. Mas vale aqui ressaltar também que, ao revisar para cima a previsão do consumo das famílias, o Banco Central passa agora a sinalizar a possibilidade de alguma redução daquela ociosidade, bem como de alguma elevação da expectativa de crescimento dos mercados para o setor privado. Com base na lógica de que o investimento é induzido pela necessidade de ajustar a capacidade produtiva à demanda corrente e esperada, seria mais coerente esperar por um resultado ao menos um pouco melhor da FBKF, comparado com a previsão que havia sido realizada anteriormente.

Com raras exceções, tem sido recorrente no debate público brasileiro essa dificuldade de análise sobre a composição da demanda agregada entre consumo e investimento. Ainda que sem qualquer sustentação empírica, parece popular certo senso comum de que não pode haver crescimento consistente dos gastos de consumo simultaneamente ao crescimento dos gastos de investimento. Somente nos meses mais recentes, parece ter ficado mais claro, conforme demonstram parcialmente as revisões de projeção do próprio BCB, que o investimento não teria porque voltar a crescer sem uma prévia retomada do crescimento dos gastos que não criam capacidade produtiva. Foi nesse contexto que, passando a apostar em medidas pontuais e aparentemente bem-sucedidas de estímulo ao consumo (como a liberação dos saques do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS)), o atual Governo pôde finalmente comemorar um crescimento positivo do PIB. Seria excelente se essas lições da realidade fossem efetivamente incorporadas aos modelos de previsão do Banco Central. Ainda que, no contexto de uma ciência social como a economia, a exatidão numérica das previsões deva sempre ser avaliada com certa complacência, desvios tão significativos de previsão em variáveis tão centrais, como é o caso da FBKF, não parecem decorrer de meros detalhes técnicos, mas, sim, da própria concepção subjacente ao modelo de previsão.

Compartilhe