Construção civil no RS: reversão do cenário recessivo?

Dados do PIB gaúcho referentes ao 2.º trim./16, divulgados pela FEE, mostram que alguns segmentos da economia apresentam sinais de melhora, a despeito do cenário recessivo que persiste. O setor de construção civil, por exemplo, cresceu 1,0% em relação ao mesmo trimestre de 2015, interrompendo uma sequência de oito trimestres consecutivos de queda. No entanto, o segmento ainda acumula queda no ano, e as perspectivas de curto e médio prazos não são claras. Nesse contexto, uma avaliação do cenário para os próximos meses requer a análise de um conjunto maior de informações.

Alguns indicadores movimentam-se conjuntamente aos ciclos da atividade econômica, seja ela setorial, seja ela agregada; outros precedem esses movimentos: são os chamados indicadores antecedentes. Por exemplo, o nível de emprego em etapas iniciais de obras de construção, que incluem terraplanagem, canteiro de obras e execução de fundações, traz informações sobre a atividade econômica ao longo do ciclo de vida do empreendimento. Analogamente, mudanças na perspectiva de risco da economia podem afetar as decisões correntes de investimento. Assim, informações que temos hoje podem sinalizar o ritmo da atividade econômica no futuro.

Após um processo de seleção, as variáveis consideradas antecedentes da construção foram classificadas em três grupos: (a) sensíveis a expectativas; (b) causadoras primárias; e (c) estágios iniciais da produção. As variáveis em cada um dos grupos foram, então, agregadas, e o resultado está exposto na figura, juntamente com os períodos de recessão da economia brasileira, datados pelo The Conference Board e pela Fundação Getúlio Vargas, e servem como referência para as flutuações da atividade econômica.

Considerando as séries contidas no grupo de variáveis sensíveis a expectativas, as perspectivas são favoráveis. O IMOB, que representa a evolução de uma carteira teórica de ativos do setor, acumula alta de 36,9% no ano. Essa melhora nas expectativas é percebida também no ICEI da Construção, da FIERGS, que subiu 30,4% desde o nível mínimo, registrado em mar./16. Além disso, não apenas os empresários do setor estão mais confiantes, como também os corretores de imóveis e os consumidores, como aponta o IEMI, de Porto Alegre, referente a agosto. Na contramão, a ICF, da Fecomércio-RS, indica que os consumidores da Capital ainda estão pouco otimistas, freando um crescimento mais acentuado desse grupo de variáveis antecedentes.

Com relação aos causadores primários, o valor mínimo do indicador agregado, nesse período recessivo, é observado em dez./15 (ver figura). Entre seus componentes, a melhora é concentrada na taxa de juros de DI pré-fixada de 360 dias, que reduziu de 15,8% para 13,2% nesse período. No entanto, as concessões reais de crédito para o setor da construção no RS apenas pararam de cair, sem ainda reverter a tendência. Essa estabilização do saldo de crédito atinge tanto a concessão para construção, ampliação e reformas quanto para aquisição de imóveis.

Por fim, diferentemente dos anteriores, as variáveis dos estágios iniciais de produção ainda não apresentam sinais consistentes de recuperação. O nível de emprego formal nesses estágios permaneceu caindo no ano, até agosto (-3,3%). Também segue em queda o número de unidades lançadas em Porto Alegre, apesar da leve recuperação observada nas vendas de imóveis. Por outro lado, observa-se aumento da produção de insumos típicos da construção (cimento, aço, etc.) e de bens de capital destinados ao setor; essa melhora, porém, ainda é tímida.

Em resumo, o prognóstico para o desempenho da construção no RS, nos próximos meses, baseado nas múltiplas dimensões antecedentes aqui analisadas, sugere que a intensa e duradoura recessão que atingiu o setor está próxima do fim. A retomada, no entanto, a julgar pela magnitude e pela difusão na recuperação dos indicadores, deverá ser moderada, o que enseja um otimismo cauteloso.

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