Conexões entre a agricultura brasileira e a indústria gaúcha

Em se tratando da análise do desempenho recente da economia do RS, talvez o mantra mais repetido entre os economistas seja o de que “quando a agropecuária gaúcha vai bem, a economia gaúcha vai bem (e vice-versa)”. Mais especificamente, enfatiza-se que a ampliação da participação do RS na renda nacional está condicionada ao avanço do produto da agropecuária local. Essa máxima vigorou em 12 dos últimos 13 anos e promete repetir-se em 2014.

As razões dessa interdependência são bastante conhecidas. Apesar de participar com menos de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho, o campo origina significativa parcela das matérias-primas utilizadas pela indústria de transformação do Estado (alimentos, fumo, biocombustíveis). Além do mais, a agropecuária constitui-se em importante atividade demandante de bens industriais (insumos, máquinas, armazéns) e serviços de distribuição e transporte que são produzidos localmente. Por tudo isso, estima-se que o agronegócio responda por cerca de um terço da renda do Estado.

Porém os recorrentes altos e baixos do PIB gaúcho, associados às variações do produto da agropecuária em momentos de recuperação e quebra da safra, revelam apenas parte da dependência do Estado em relação ao agronegócio. Por sua importância para a produção de grãos, até a década de 80 do século XX o RS foi conhecido como celeiro do País. Desde então, a fronteira agrícola avançou mais em outras regiões, principalmente nas áreas do Cerrado, e o Estado perdeu protagonismo.

Essa mudança não foi tão impactante para a economia local, em parte, porque a indústria gaúcha de máquinas e equipamentos para o agronegócio, nascida para atender ao mercado regional, aproveitou o estímulo gerado pela expansão da produção agrícola nacional. Nos últimos 10 anos, o Valor Bruto da Produção agrícola do Brasil aumentou 140%, em um cenário marcado pela alta dos preços internacionais das commodities agrícolas, pelo avanço da área plantada e por substanciais ganhos de produtividade. A resultante  capitalização do produtor rural, aliada à melhoria das condições de crédito ofertadas para a compra de máquinas e equipamentos, gerou transbordamentos para a indústria gaúcha.

No Estado, estão presentes três Aglomerações Produtivas (AP) industriais, especializadas no fornecimento de produtos para distintas etapas das atividades agropecuárias e agroindustriais regionais e nacionais. A região dos Coredes Alto Jacuí e Produção destaca-se pela oferta de produtos voltados à preparação do solo, à plantação e ao cultivo agrícola (AP Pré-Colheita). Na Fronteira Noroeste, encontra-se a tradicional indústria de colheitadeiras (AP Colheita), e,  completando o mix industrial, no Noroeste Colonial, está concentrada a produção de equipamentos de armazenagem, secagem, limpeza, movimentação e controle de cereais (AP Pós-Colheita). Para se ter ideia da importância dessas atividades, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o peso das mesmas na indústria de máquinas e equipamentos do RS é superior a 50%.

Em 2013, a produção nacional de máquinas agrícolas atingiu a marca histórica de 100.000 unidades, tendo o Estado participado com 43,7% desse total. Esse crescimento da demanda nacional por bens de capital destinados a agricultura contribuiu decisivamente para o avanço de 62,2% na indústria gaúcha de máquinas e equipamentos entre 2003 e 2013. No mesmo período, a indústria de transformação do RS cresceu apenas 12,8%.

Assim, se é inegável que a economia gaúcha depende da agropecuária local, também se fortalece a percepção de que o avanço da indústria gaúcha está cada vez mais atrelado ao desempenho da agricultura nacional. No médio prazo, a expansão da renda agrícola brasileira deve manter-se, gerando oportunidades de crescimento para a indústria. Ainda que os recordes de 2013 não se devam repetir nesse ano, a retomada do Programa Moderfrota (BNDES), anunciada no final de maio, e a implementação do Plano Nacional de Armazenagem, são medidas que podem dar fôlego adicional para o setor no RS. Índices do Valor Bruto da Produção (VBP) agrícola e da produção de máquinas e equipamentos no Brasil e índice da produção de máquinas agrícolas no RS — 2003-13.

Conexões entre a agricultura brasileira

Rodrigo D. Feix
Economista, Pesquisador da FEE

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