Competitividade em aglomerações produtivas e Arranjos Produtivos Locais no RS

Em novembro último, uma equipe de pesquisadores da FEE publicou o e-book Aglomerações e Arranjos Produtivos Locais no Rio Grande do Sul, que faz uma síntese de estudos realizados em 11 aglomerações produtivas (APs) e Arranjos Produtivos Locais (APLs) do RS. A pesquisa originou-se de uma solicitação do Governo do Estado por informações e análises para subsidiar a elaboração de ações de apoio no âmbito do Projeto de Fortalecimento dos Arranjos Produtivos Locais. Procurou-se identificar APs industriais nos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes) e selecionar para estudo — por critérios de importância estratégica — casos que possuíssem potencial para contribuir para o desenvolvimento econômico das respectivas regiões. Objetivou-se investigar a aderência das APs selecionadas ao conceito de APL; delinear a cadeia produtiva dessas aglomerações e analisar os fatores determinantes da competitividade das empresas; e sugerir ações para o seu desenvolvimento. Os casos estudados foram: instrumentos médicos (Cidade de Pelotas), gemas e joias (Alto da Serra do Botucaraí), máquinas agrícolas (Central e Jacuí-Centro), máquinas agrícolas (Alto Jacuí e Produção), componentes eletrônicos (Metropolitano Delta do Jacuí e Município de São Leopoldo), máquinas-ferramenta (Vale do Rio dos Sinos e municípios adjacentes), setor automotivo (Serra), móveis (Serra), calçados (Vale do Rio dos Sinos e Paranhana-Encosta da Serra), laticínios (Fronteira Noroeste e Celeiro) e laticínios (Vale do Taquari). Este drope foca a apresentação das vantagens e dos gargalos à competitividade que se repetiram com maior frequência nesses casos, pois refletem vetores gerais incidindo sobre a indústria gaúcha.

A relevância das políticas para os APLs, enquanto instrumentos de desenvolvimento setorial e regional, reside nos benefícios proporcionados pela aglomeração de empresas de uma mesma atividade. Sob a ótica teórica, APs e APLs permitem a criação de sinergias — economias externas — a partir da escala de mercado gerada, possibilitando a instalação de fornecedores de insumos, de máquinas e equipamentos e de serviços, assim como a formação de um mercado de trabalho com mão de obra qualificada, voltados às necessidades da produção local. Isso gera benefícios, como acesso a recursos específicos, troca de conhecimentos produtivos e comerciais, maior visibilidade política ao pleito de demandas junto ao poder público, entre outros. A proximidade também facilita a interação e a cooperação para a solução de problemas comuns, com base no capital social e na cultura compartilhada. Em especial, no processo de desenvolvimento de inovações, as interações entre os atores são fundamentais devido às trocas de recursos e de conhecimentos científicos e tecnológicos. A apropriação desses fatores pelas empresas eleva sua competitividade — sendo particularmente importantes para as de micro e pequeno porte, que possuem maiores dificuldades em investir na formação de suas capacitações produtivas e tecnológicas — proporcionando aumentos de produção, emprego e renda, contribuindo, dessa maneira, ao desenvolvimento econômico regional. O Rio Grande do Sul, inclusive, foi pioneiro, no Brasil, na aplicação deste tipo de política desde 1999, sendo seguido pelo Governo Federal a partir de 2004.

As análises dos casos pesquisados revelaram que as vantagens competitivas mais frequentes residem nas economias de aglomeração. Os entrevistados destacaram o apoio das instituições locais, especialmente as de ensino e pesquisa (públicas ou privadas), de treinamento profissional e de assessoramento. Essas formam recursos humanos qualificados, realizam pesquisas e desenvolvem tecnologias, transferindo-as às empresas, além de prestarem serviços tecnológicos através do acesso à sua infraestrutura de laboratórios. Foi apontado que as funções desempenhadas por essas organizações gaúchas efetivamente contribuem para a competitividade das empresas. Os atores locais relataram que existe disponibilidade de trabalhadores aptos para a realização de tarefas de menor complexidade e sofisticação na produção e, sobretudo, para a fabricação de produtos tradicionais das APs e dos APLs pesquisados. Algumas empresas de grande e médio porte de setores intensivos em tecnologia — como o automotivo e o de máquinas agrícolas — também conseguem possuir capacitações próximas à fronteira tecnológica de suas atividades. Contudo, essa realidade não é comumente partilhada pelas empresas menores da mesma AP ou do mesmo APL.

Dentre os limitantes à competitividade indicados reiteradamente, especialmente para as micro e pequenas empresas, elencam-se dificuldades que se devem: à baixa capacitação em técnicas de gestão e de comercialização; ao acesso restrito às linhas de crédito; à ausência de fornecedores locais para determinados insumos — sobretudo para aqueles de maior complexidade tecnológica, com destaque para os componentes eletrônicos, requerendo sua importação de outros estados ou do exterior; à insuficiência financeira para a aquisição de máquinas e equipamentos tecnologicamente atualizados; aos baixos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D); à baixa frequência na interação universidade-empresa para o desenvolvimento de inovações tecnológicas; e ao elevado custo de logística. Assim, em alguns casos, encontram-se limitações nas capacitações das empresas, como defasagens tecnológicas em produtos e processos produtivos, baixa disponibilidade de trabalhadores com determinadas qualificações, entre outras, que dificultam a inserção em segmentos de mercado de produtos de maior valor agregado, mesmo em setores tradicionais (por exemplo, gemas e joias). Somam-se a isso alguns obstáculos que limitam a cooperação em APLs, destacando-se as dificuldades para integrar as micro e pequenas empresas com as de maior porte, a ocorrência de acirrada competição através de estratégias de baixo custo e baixo preço em determinados nichos de mercado; e a fragilidade da governança estabelecida quanto à sua capacidade de representar os interesses dos diferentes grupos de atores locais.

Resumidamente, esses foram os determinantes da competitividade mais frequentemente encontrados nos casos estudados, indicando algumas das questões a serem tratadas. Nesse rumo, ressalta-se a necessidade de ampliar o fomento à pesquisa e ao desenvolvimento científico e tecnológico no Estado e à sua difusão entre as empresas gaúchas. Evidentemente, as vantagens e os obstáculos apontados variam em importância e intensidade de seu impacto sobre a competitividade, estando detalhados nos estudos individuais. Alinhada à missão da FEE, espera-se que o e-book e os demais produtos da pesquisa contribuam à elaboração de ações, pelos poderes públicos e pelos atores locais, voltadas ao desenvolvimento econômico de cada AP ou APL, além de servirem como fonte de informações à comunidade acadêmica, estando os mesmos disponibilizados na internet.

Como citar:

COSTA, Rodrigo Morem da. Competitividade em aglomerações produtivas e Arranjos Produtivos Locais no RS Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/competitividade-em-aglomeracoes-produtivas-e-arranjos-produtivos-locais-no-rs/>. Acesso em: 23 de agosto de 2017.

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