Comércio assimétrico com a Argentina

Uma análise do comércio Brasil-Argentina e RS-Argentina de 2000 a 2003 mostra que o saldo comercial com esse país foi sempre deficitário (gráfico). Em 1999, a alteração do regime cambial no Brasil aumentou a competitividade dos produtos brasileiros nos mercados externos e deu início às restrições comerciais impostas pela Argentina. Apesar de esse país, em fins de 2001, ter abolido o regime de conversibilidade com o dólar e desvalorizado sua moeda nos meses subseqüentes, essa situação foi acompanhada de uma grande crise interna. E, não obstante a forte recuperação da paridade cambial entre os dois países, o ano de 2002 apresentou a menor corrente de comércio bilateral. A partir de 2003, porém, os fluxos comerciais recuperaram-se, principalmente nas exportações brasileiras para a Argentina, a qual apresentou crescimento generalizado das importações. Enquanto o Brasil aumentou sua participação na pauta importadora da Argentina, esta perdeu representatividade nas importações brasileiras. Essa situação levou a Argentina a questionar os benefícios do processo de integração, aumentando as tensões no comércio, com a adoção de medidas protecionistas unilaterais.

Analisando-se a balança comercial com a Argentina de jan.-jul./04 em relação aos sete primeiros meses de 2003, observa- se que as exportações brasileiras e gaúchas para a Argentina cresceram, respectivamente, 80% e 67%, enquanto as importações oriundas desse país evoluíram apenas 12% para o Brasil e 15% para o Estado. Por decorrência, verificaram-se um saldo superavitário para o Brasil, ao contrário do que vinha ocorrendo, e um menor saldo deficitário para o RS.

Essa situação, parcialmente explicada pelas diferenças de estrutura do comércio bilateral e pelos respectivos tamanhos das economias, gerou grandes insatisfações e retaliações por parte dos argentinos e aprofundou as disputas comerciais entre as duas maiores economias do Mercosul. Várias medidas de caráter unilateral foram anunciadas — algumas já adotadas pela Argentina — para dificultar o acesso de alguns produtos brasileiros, como a adoção de cotas e licenças de importação, dentre outras.

Para os argentinos, essas medidas estão de acordo com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), tendo em vista a necessidade de proteger a indústria local, com capacidade ociosa, do elevado crescimento das importações, as quais estariam impedindo sua recuperação e comprometendo a geração de emprego. Tais medidas atingiram, em especial, os produtos eletrodomésticos — geladeiras, fogões, máquinas de lavar e televisores —, havendo uma ameaça sobre os calçados. Já os representantes do setor eletroeletrônico brasileiro afirmam que as restrições argentinas não se justificam e infringem as regras do Mercosul. A despeito das diferenças de opiniões, o Brasil não manifestou interesse em discutir a situação na OMC. Isto porque, em processos de integração, existem alguns custos que devem ser assimiláveis pelos maiores sócios, sem que isso represente abdicar da reciprocidade. No caso, se o Brasil quiser manter a hegemonia no Mercosul, talvez precise sustentar uma balança comercial deficitária com a Argentina, para favorecer os ajustes necessários a serem realizados nessa economia, já que, para o Brasil, o Mercosul representa, sobretudo, uma questão estratégica de geopolítica, além da inserção no mercado internacional.

Comércio assimétrico com a Argentina

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