Canais de transmissão da agricultura para a economia

Historicamente, a agricultura tem uma grande importância na economia gaúcha, maior do que tem em outros estados industrializados e no Brasil como um todo. Entre 2002 e 2010, em média 9,9% do valor adicionado pela economia do RS veio da agropecuária, contra 6,1% no Brasil. Além disso, esse setor apresenta, em virtude de condições climáticas, uma variabilidade maior do que a indústria e os serviços. A média dos valores absolutos dos índices de volume da agropecuária entre 2003 e 2010 foi 15,8 p.p., bem maior do que a da indústria (4,5 p.p.) e a dos serviços (3,2 p.p.). Juntos, esses dois fatores — participação e variabilidade — fazem com que variações na agricultura sejam responsáveis por grande parte das variações no PIB do Estado.

Porém o senso comum atribui à agricultura uma causalidade ainda maior no comportamento da economia gaúcha, através da sua influência nos outros setores. Em que medida isso é verdade é uma questão que precisa ser estudada com mais atenção. Tendo isso em mente, este texto se propõe a discutir dois possíveis canais de transmissão da agricultura para o resto da economia.

Um primeiro canal é o efeito da renda gerada na lavoura no comércio dos municípios. Após uma boa safra, o agricultor poderia comprar mais, enquanto teria que reduzir seus gastos frente a uma safra ruim.

Para testar esse canal, estimou-se um modelo (mínimos quadrados ordinários) onde a variação do comércio de cada município é explicada pela variação em volume da sua agricultura, utilizando-se dados de 2003 a 2009 da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM-IBGE) e do PIB Municipal (FEE/IBGE). O resultado mostrou que um crescimento de 1 p.p. da economia gerado pela agricultura faz com que, em média, o comércio do município cresça 0,3 p.p. acima da média do Estado. Assim, o aumento (ou diminuição) dos gastos com consumo é um canal significativo de transmissão da renda agrícola. Contudo, como pode ser visto no gráfico, a variabilidade dos resultados observados é grande, mostrando que o poder de explicação da agricultura no comércio municipal é pequeno, com outras variáveis sendo necessárias para explicá-lo propriamente.

Outro canal de transmissão é o efeito do desempenho da lavoura sobre a indústria do RS. Uma maior produção demandaria mais insumos, como defensivos agrícolas, e investimento em máquinas e equipamentos, além de significar uma maior oferta de matéria-prima para indústrias como as de alimentos e fumo.

Para testar essa hipótese, calculou-se a correlação entre a produção agrícola medida pela PAM e diversos setores da indústria de transformação medidos pela Pesquisa Industrial Mensal (IBGE), de 1995 a 2011. Nesse canal, as correlações não se mostraram tão significativas quanto se esperaria. A correlação entre a agricultura do ano t e o setor de máquinas e equipamentos do ano t+1 foi de 0,35; e de 0,14 com o setor de alimentos de t+1 (a correlação entre lavoura e indústria do mesmo ano foi ainda menor). Já utilizando o desempenho de produtos específicos, o fumo apresentou correlação de 0,51 com a indústria de fumo, e o arroz, correlação de 0,34 com a de alimentos, ambas dentro do mesmo ano.

Algumas hipóteses podem explicar, em parte, a ausência de correlações mais fortes. Pelo lado do consumo intermediário da lavoura, a explicação pode ser a compra de parte dos insumos fora do RS, assim como a venda de produtos da nossa indústria de fertilizantes e defensivos em outros mercados, especialmente em momentos de queda da lavoura gaúcha. Quanto ao investimento em máquinas e equipamentos, é de se esperar que ele tenha uma maior ligação com a expectativa dos resultados de safras futuras do que com safras passadas. Já a indústria de alimentos, que demanda bens agrícolas como insumos, responde não só à oferta destes como também à demanda por seus produtos. Assim, uma maior safra garante apenas um aumento no desejo de ofertar um bem alimentício a um dado preço; porém o aumento da quantidade produzida vai depender também da demanda por esse produto, que não depende do resultado da lavoura.

Concluindo, para se estudar o impacto da agricultura na economia gaúcha deve-se fazer um maior uso da ótica microeconômica, com foco nas relações entre os setores da economia, além de controlar a análise para o efeito de outras variáveis que também afetem a economia gaúcha, como variações nas políticas do Governo Federal e no setor externo.

Canais de transmissão da agricultura para a economia

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