Calçados em busca de nova inserção internacional

A busca continuada por formas de redução dos custos do trabalho na indústria calçadista, haja vista a reduzida possibilidade de automatização de várias tarefas do processo produtivo, e a necessidade de produção de grandes volumes para o segmento de consumo de massa acabaram consolidando a Ásia como o grande provedor mundial de calçados. Conforme informações da Abicalçados, em 2005, a Ásia foi responsável por 83% da produção mundial de calçados, com destaque para a China, que fabricou nove bilhões de pares de calçados em suas 18.000 fábricas e exportou um pouco acima da metade do volume mundial comercializado (53%). O Brasil é o terceiro produtor mundial de calçados e o único país não asiático entre os sete maiores produtores.

No início dos anos 90, a maior exposição da economia brasileira à concorrência externa impactou fortemente a indústria calçadista local. Ao longo do ajuste que se seguiu, as empresas passaram a investir em processos e produtos, buscando reduzir custos e racionalizar a produção. Uma estratégia importante foi o deslocamento de plantas das regiões produtoras tradicionais (Vale do Sinos-RS e regi ão de Franca-SP) para a Região Nordeste, atraídas por uma mão-de-obra mais barata e por incentivos fiscais. A exportação de calçados, no entanto, continuou sendo realizada primordialmente pelas regiões produtoras originais por mais uma década, sofrendo os efeitos da valorização e da desvalorização do real e de uma conjuntura internacional em que mercados tradicionais se viam tomados pelos produtores asiáticos, especialmente os chineses, cujos calçados eram comercializados a preços baixos imbatíveis.

O avanço dos calçados asiáticos e o processo de valorização do real iniciado em 2004 impulsionaram a utilização de estratégias que trouxessem uma nova inserção internacional da indústria brasileira de calçados, dentre elas: a diversificação de mercados e a ampliação do mercado externo; o foco na fabricação de produtos diferenciados de maior valor agregado destinados a nichos de mercado, através de investimentos em design e produtos de moda; e a comercialização com marca própria em substituição ao regime de subcontratação antes majoritariamente utilizado.

O exame da evolução das exportações de calçados gaúcha e brasileira (ver tabela) mostra o resultado positivo dos esforços realizados. Apesar das perdas expressivas ocorridas nas vendas externas, em número de pares, principalmente no Rio Grande do Sul, especializado na produção de calçados de couro femininos, em sua maior parte direcionada para o mercado externo, os valores exportados em 2007 são semelhantes aos de 2004, em decorrência do aumento do preço médio de exportação para todos os países selecionados, que compensou, em grande medida, os efeitos do real valorizado. O movimento na direção de segmentos de produtos de moda, cujos calçados possuem maior qualidade e preço e nos quais se têm concentrado os investimentos em estilo, design e consolidação de marca própria, abriu novos nichos de mercado para o calçado brasileiro, compensando as perdas de participação em mercados compradores de calçados de menor preço, ocupados pelos fabricantes chineses. Em termos de diversificação de mercados, os dados mostram a redução da participa ção dos EUA paralelamente ao crescimento das vendas para países europeus (Reino Unido, Itália e Espanha) e latino-americanos (Argentina e Venezuela).

Pelo lado das importações, é possível conferir o notável crescimento da participação da China e dos demais países produtores e exportadores asiáticos nas compras externas gaúchas e brasileiras desse produto. A expansão dessas importações, impulsionada pela desvalorização do dólar, vem preocupando a indústria calçadista dom éstica, pois concorre com o produto nacional no mercado interno.

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