Aumento dos juros e risco de desaceleração nos EUA

Apesar de estarem no epicentro da crise financeira de 2007, os EUA cresceram a uma média de cerca de 2% nos últimos três anos. Embora possa parecer pouco para a economia mais poderosa do mundo, está entre as taxas de crescimento mais elevadas entre os países desenvolvidos no período. Em outubro de 2014, o Federal Reserve (FED) encerrou a terceira rodada do quantitative easing (QE), e, hoje, há uma grande aposta de que, em 2015, os juros irão subir em linha com a “normalização” da política monetária. O Banco afirma que o fará, quando o mercado de trabalho estiver suficientemente sólido e se elevarem as expectativas de inflação, afastando o temor deflacionário. Essa ação trará profundas implicações para as economias norte-americana e mundial, podendo prejudicar a recuperação dos EUA, que não se mostra consistente.

Quanto ao fator taxa de inflação, segue bem abaixo da meta de 2%. Em maio, acelerou para 0,4%, fechando em 0%, em 12 meses. Mesmo assim, há quem acredite que a atual política monetária tem potencial para desencadear forte crescimento no nível de preços. A previsão do FMI para 2015 é de subida de 0,1%.

Para muitos analistas, os dados do mercado de trabalho já justificariam uma elevação do juro básico. Após alcançar seu mínimo de sete anos em abril, a taxa de desemprego subiu 0,1% e chegou a 5,5% em maio, mantendo-se dentro do intervalo que o FED estima como desemprego de longo prazo, que, hoje, é de 5,2% a 5,5%, o que provaria solidez do mercado de trabalho.

Porém ainda restam aspectos preocupantes. Repetindo padrão iniciado nos anos 90 do século passado, a recuperação é do tipo jobless recovery, ou seja, o equilíbrio do mercado de trabalho dá-se em um patamar no qual pioram as condições da maioria dos trabalhadores. Conforme mostram dados do Bureau of Labour Statistics, a maior parte da criação de empregos tem-se concentrado em serviços de baixa remuneração. A vislumbrada reindustrialização, iniciada a partir de um boom na extração do óleo e gás do shale, não se mostrou sustentável. A atividade fomentada pela nova alternativa de fonte energética — que diminui a necessidade de importação de petróleo — arrefeceu-se, com queda de quase 20% dos empregos do setor, impactando os investimentos e sendo mais uma força para a expansão modesta do investimento em 2015. Além disso, o percentual de participação da população na força de trabalho ficou em 62,9% em maio, níveis baixos semelhantes aos dos anos 70 do século passado.

A renda do trabalho mantém-se praticamente estagnada, tanto que o aumento de US$ 0,08 na média salarial, em abril, foi comemorado. Há também um processo de concentração de renda em curso. Isso impacta o consumo das famílias, que corresponde a cerca de dois terços do PIB dos EUA. O ritmo de crescimento do consumo após a crise de 2007 é o mais lento, quando comparado às recuperações de recessão no período pós Segunda Guerra. Tal fato é mais um fator a dificultar uma recuperação mais consistente da economia dos EUA. Além disso, acreditava-se que a queda no preço do petróleo abriria espaço para uma robusta expansão do consumo, porém, devido à atual valorização do dólar, ampliam-se as importações, diminuindo o impacto do consumo no PIB.

Quanto ao produto, retraiu-se 0,2% no primeiro trimestre de 2015, em relação ao mesmo período anterior. O FED, porém, acredita ser essa uma queda momentânea, devido a fatores sazonais, como o inverno rigoroso. Havia grande otimismo com o PIB de 2015, principalmente após a aceleração da expansão do produto, no final de 2014. O FMI inicialmente previa uma expansão anual de 3,1% para 2015, revista para baixo, projetando agora um avanço de 2,5%, seguindo o mesmo padrão das previsões nos anos anteriores: otimistas no início e posteriormente rebaixadas.

A aceleração do déficit comercial é mais um empecilho ao crescimento do produto. A estratégia da manutenção de déficits externos atuando como “importador de última instância” foi a política utilizada pelos EUA neste século, até a crise. Após sua eclosão, os déficits foram reduzidos, incentivados tanto pelo efeito recessivo sobre o consumo de importados como pela melhora no saldo comercial, com um dólar mais fraco. Porém a recente valorização do dólar fez com que o resultado da balança comercial novamente acelerasse sua deterioração, e o resultado só não foi pior devido ao saldo positivo na balança de derivados de petróleo. O aumento dos juros e um consequente fortalecimento da moeda norte-americana pode tornar esse quadro ainda mais dramático. Dólar forte, somado à fraca recuperação dos desenvolvidos e à desaceleração dos emergentes, inviabilizaria uma retomada robusta de seu setor externo.

Em um cenário em que grande parte do mundo desenvolvido apresenta as mínimas históricas de suas taxas de juros, a alta da taxa dos EUA dos atuais 0,25% aumenta o potencial de valorização do dólar, com o estímulo dado pelo diferencial de juros perante seus principais parceiros e/ou competidores. Esse novo impulso de valorização do dólar ocorreria em um momento de expansão monetária na Europa e no Japão, que vêm obtendo ganhos nas exportações, com a depreciação de suas moedas frente à dos EUA. Estimativas de cenários alternativos do Levy Institute preveem que o impacto negativo no produto de uma desaceleração pronunciada dos principais parceiros comerciais norte-americanos e do fortalecimento do dólar frente às principais divisas seria de 0,5% e 1,0% respectivamente, sendo o dólar forte o maior risco ao crescimento dos EUA.

O cenário mundial é delicado, e a valorização do dólar é o maior desafio a uma retomada robusta do crescimento norte-americano. Os infundados temores de uma disparada inflacionária e as pressões políticas para uma maior remuneração do capital financeiro trazem o risco de ampliar o fortalecimento do dólar e prejudicar os planos da nação hegemônica de voltar a crescer em um patamar de 3%.

Os impactos das decisões norte-americanas invariavelmente irão afetar o Brasil. Como a manutenção no atual patamar do câmbio não resolve o problema nas transações correntes e uma desvalorização pode levar a inflação de 2015 a dois dígitos, o Brasil tem complicados desafios pela frente, seja qual for a ação do FED.

drope6

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