As mudanças na estrutura do comércio internacional mundial

Nos primeiros anos deste século, a economia mundial passou por uma profunda transformação em sua estrutura, podendo-se elencar dois pontos como fundamentais: os preços relativos das valorizaram-se com relação aos manufaturados, e os países subdesenvolvidos passaram a crescer relativamente mais do que os desenvolvidos. A atualização da série histórica daOrganização Mundial de Comércio — iniciada em 1990 — mostra a participação dos países no total de exportações e importações mundiais e ajuda a ilustrar, a partir das mudanças na estrutura do comércio mundial, taistransformações.

Um possível declínio dos EUA, combinado com a ascensão da China ao posto de segunda maior economia mundial, podendo esta vir, no futuro, a desafiar o poderio hegemônico norte-americano, é a principal discussão internacional neste novo século. No campo do comérciointernacional, por outro lado, o domínio mundial de exportações deixou de ser norte-americano há quase uma década. Os EUA foram os maiores exportadores do mundo de 1991 a 2003, quando perderam liderança para a Alemanha, e, em 2007, caíram para o terceiro lugar no ano em que a China assumiu a liderança. Porém, nos últimos dois anos, mais devido ao enfraquecimento nas vendas alemãs, muito dependentes de seus vizinhos europeus, do que por uma recuperação consistente de suas vendas externas, os EUA voltaram ao segundo posto. Com o alto nível de endividamento de seu setor privado doméstico, o consumo interno se mostra combalido, sendo essencial uma recuperação consistente de seu setor externo para que osEUA cresçam de forma a cair seu desemprego. A manutenção como maior importador mundial durante toda a série ilustra o poder de sua economia, pois, mesmo após uma crise sem precedentes, ainda são o maior destino de bens produzidos pelo resto do mundo. Porém diminuíram progressivamente sua participação nesse quesito.

A China apresentou uma impressionante ascensão ao posto de nação mais exportadora do mundo. Em 1990, detinha 1,83% das participações mundiais, muito distante dos 11,59% obtidos pela economia dos EUA naquele mesmo ano. Em 2011, atingiu 10,68%, contra 8,33% dos EUA. A guinada chinesa rumo ao de potência mundial foi o principal fator que tornou a Ásia a região econômica mais dinâmica e que mais cresce no mundo atualmente. A China mantém superávits com praticamente o mundo inteiro, mas apresenta déficit com seus parceiros asiáticos, contribuindo para a demanda e o crescimento de toda a região, incluindo os países desenvolvidos e subdesenvolvidos do continente.

A Europa, continente mais afetado pela crise de 2007 e envolta em um cenário econômico de pessimismo e incerteza, perdeu mercados em diversas nações importantes. Como exemplo, Reino Unido e França têm hoje déficits comerciais e viram suas participações nas exportações caírem pela metade desde 1990, movimento resultante, principalmente, da desindustrialização verificada nas últimas décadas, da concorrência global imposta pela Ásia, bem como da utilização de um modelo de crescimento baseado em consumo, oposto ao praticado por seus vizinhos do norte europeu. Tais países, que têm como principais expoentes a Alemanha e os Países Baixos, utilizam-se de modelos exportadores com forte uso de deflação competitiva, ampliando seus saldos comerciais e a participação nas exportações mundiais. A Alemanha, inclusive, foi líder em exportações de 2002 a 2008. Os Países Baixos, hoje o quinto maior exportador do mundo, que detêm uma pauta de exportação variada, englobando de produtos agroindustriais a manufaturados apresentaram uma progressiva elevação na participação. Porém, como quase toda a Europa se encontra em recessão, os últimos dois anos foram de queda nas exportações para todo o continente, e mesmo o sucesso das nações exportadoras estará em xeque, caso não se altere o cenário europeu.

Quanto ao nosso país, apresenta resultados bastante modestos para o tamanho de sua economia, mas, mesmo assim, garante a liderança regional. O Brasil aumentou sua fatia no comércio internacional, na última década, beneficiando-se do salto no valor das commodities. Porém as importações vêm crescendo em ritmo mais elevado que as exportações, o que é acentuado por uma provável desindustrialização, e, embora isso ainda não torne o saldo comercial negativo, poderá vir a trazer problemas. Torna-se imperativo uma recuperação da indústria nacional. Esta, por sua vez, esbarra em diversos entraves, os quais saem do foco deste texto. O certo é que, com essa pequena participação no comércio internacional, ainda muito dependente de commodities, o Brasil terá dificuldades para superar sua condição periférica em nível global.

As mudanças na estrutura do comércio internacional mundial

Compartilhe