As jornadas de junho

As jornadas de junho sinalizam a retomada de movimentos massivos, tendo como estopim o preço de passagens, ao qual se somou uma pauta de interesses difusos. Condensaram, potencializadas pelo uso de redes sociais, manifestações de menor escala que já ocorriam em anos recentes, envolvendo, além do preço das passagens, lutas pelos direitos civis de mulheres e homossexuais, democratização da mídia empresarial e o uso da cidade em um cenário de especulação imobiliária crescente, vista como alternativa às limitações governamentais à acumulação puramente financeira. Pesquisa realizada em vários estados, no calor dos embates, mostra a participação majoritária de jovens entre 17 e 24 anos, em parte filhos da classe média mais tradicional e, principalmente, de novos trabalhadores que ascenderam socialmente, nos últimos anos, devido às oportunidades de emprego, ainda que modestos, e à expansão de oportunidades de acesso ao ensino universitário.

As manifestações são o quarto movimento de politização em massa nos últimos 30 anos, caso se considerem as greves do ABC ao final dos anos 70, a Campanha das Diretas e o impeachment de Collor, em 1992. Não possuem um centro organizativo em que pese o protagonismo inicial do Movimento Passe Livre (existente, há vários anos, em São Paulo), uma frente de organizações ligadas aos movimentos sociais e partidos de esquerda, ou, em Porto Alegre, do Bloco de Luta, atuante antes de junho. A conclamação via redes sociais, a fortíssima repressão policial em São Paulo e a hostilidade inicial da mídia corporativa, logo substituída pela simpatia, que viu nas manifestações a oportunidade de fustigar o Governo Federal, aceleraram a adesão de setores conservadores da classe média, que reforçaram componentes antipolíticos, ao incidir sobre a pauta com temas ligados à corrupção. O epicentro das manifestações transbordou, nesse ponto, das capitais para cidades das regiões metropolitanas e cidades médias, atingindo, por volta do dia 20, segundo estimativas, 1,5 milhão de participantes em todo o País. A partir daí começou o refluxo.

As jornadas tiveram como ponto inicial de impulso núcleos do Movimento Passe Livre e pontos de intersecção de debates nas redes sociais. As manifestações sofreram denso processo de agregação conservadora a partir do dia 17, quando o caráter apartidário sofreu inflexão antipartidária (com choques internos nas manifestações), impulsionado pelo apoio da mídia corporativa a partir do dia 14. O caráter antipartidário interessa aos setores conservadores, mas também conta com a simpatia de grupos autonomistas e anarquistas com presença em determinados segmentos juvenis.

Quase ao final das manifestações, ocorreu um tímido deslocamento em direção às classes populares periféricas, que se organizaram em Assembleias Populares Temáticas, em algumas capitais e centros regionais. Ao final do mês, as manifestações entraram em declínio. Nesse momento, as centrais sindicais se incorporaram, mesmo que em menor expressão, culminando com o Dia Nacional de Lutas, realizado em 11 de julho, com paralisação parcial do País.

Como entender a moldura dessas manifestações, com resultados modestos de redução do preço do transporte? Têm-se reduzido crescimento do PIB após 2010 e manutenção de profundas desigualdades sociais, apesar das políticas distributivas efetivadas nos últimos anos, aliadas à crescente percepção do caráter predatório do capital nas cidades, à privatização dos espaços públicos, à precariedade dos serviços públicos no transporte, na educação e na saúde, aos limites da política institucional, tratada como se fosse apenas uma questão de moralidade pelos conservadores. Contam, também, a desaceleração dos canais de participação, apesar das previsões legais da Constituição de 1988, das experiências de orçamento participativo e da instituição de conselhos de participação cidadã em diferentes níveis de poder. Provavelmente, chegou-se aos limites do chamado “reformismo fraco”. A pauta das manifestações mostra a necessidade de avanço das políticas públicas e, no limite, da desmercantilização da vida. As reivindicações, em geral, foram colocadas a partir do patamar conquistado nos últimos anos. O tema do ambiente político sob o viés da corrupção, presente nas manifestações com duplo sinal — de moral individualizante-punitiva ou de desconfiança frente à política institucional —, mostra os limites das jornadas, mas também a necessidade de se refundar o espaço político. O pacto proposto pela Presidência da República foi contraposto no Congresso, de corte conservador, pela chamada agenda positiva, que respondeu, em parte, aos clamores da rua. O ponto central do pacto, a reforma política, tem sido boicotado. A reforma política, respeitando-se a soberania popular, é o centro da conjuntura, pois, a partir dela, a depender do modelo adotado, diminuirá a corrupção, ao se criar relativa autonomia da esfera política em relação à esfera econômica, além de abrir vias para um reformismo forte, criando-se condições institucionais para formas inovadoras de gestão pública e distribuição de renda.

Dessa forma, constata-se que a geração que participou das jornadas aprofunda seu aprendizado republicano em um contexto não muito promissor, dado os bloqueios conservadores de longa data.

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