As exportações gaúchas de máquinas agrícolas

Nas últimas duas décadas, as exportações gaúchas de tratores e demais máquinas agrícolas — basicamente colheitadeiras — tiveram um crescimento extraordinário. Em valores constantes, dólares de 2012, elas saltaram de US$ 52 milhões em 1991 — ano de criação do Mercado Comum do Sul (Mercosul) — para US$ 574 milhões em 2012. No primeiro ano desse período, representaram 0,9% do total exportado pelo Estado e, no último, 3,0%. O maior valor da série, no entanto, ocorreu em 2008, quando as vendas externas desses produtos atingiram US$ 942 milhões, ou 4,8% do total estadual. A partir daí, verificou-se uma queda no patamar dessas exportações, sendo que, nos últimos quatro anos, a média anual caiu para US$ 600 milhões. E essa tendência pode intensificar-se. Vejamos por quê.

Com o advento do Mercosul, o RS aproveitou sua localização privilegiada e expandiu consideravelmente suas vendas para essa região e, na sequência, para outros mercados, principalmente da América do Sul (como Bolívia, Venezuela e Chile), do Norte (como Estados Unidos e México) e da África (como África do Sul e Marrocos).

Nesse processo, o mais importante mercado para o RS foi o argentino, que adquiriu, em média, 34% das exportações gaúchas de tratores e máquinas agrícolas entre 1991 e 2008. Já entre 2009 e 2012, a participação média reduziu-se para cerca de 20%. Essa queda foi consequência de uma política comercial daquele país, iniciada em 2009 e reforçada desde então, cujo objetivo último foi o de forçar a internalização da produção de determinados bens.

Como a Argentina é uma potência mundial na produção de grãos, as grandes empresas de tratores e colheitadeiras que ainda não tinham produção naquele mercado, ou não a tinham em escala adequada, acabaram cedendo e anunciaram a instalação e/ou expansão de fábricas em seu território. É o caso, por exemplo, da John Deere e da AGCO, ambas com plantas também no RS e, até o momento, grandes exportadoras para o mercado argentino. A primeira inaugurou, em 2012, uma fábrica de tratores e colheitadeiras na província de Santa Fé, e a segunda anunciou a inauguração, para 2013, de uma fábrica de tratores na província de Córdoba.

Esse movimento preocupa, porque, além da perda e/ou redução do mercado argentino, existe a possibilidade de a concorrência entre os dois países estender-se a terceiros mercados. E, nesse sentido, a Argentina apresenta pelo menos uma vantagem: lá, o Governo oferece um retorno fiscal de 14% sobre o valor do produto exportado, enquanto, no Brasil, o retorno é de 3%. Mas ainda é cedo para alguma afirmativa mais precisa. Na verdade, tudo vai depender das vantagens competitivas oferecidas pelas novas plantas e da reconfiguração das estratégias de produção e distribuição
das empresas multinacionais que dominam o setor. Portanto, é esperar para ver.

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