Argentina substitui importações de máquinas agrícolas

Em 14 de agosto de 2012, no ato de lançamento das primeiras linhas de tratores e colheitadeiras da marca John Deere produzidas na Argentina, a Presidente Cristina Fernandez de Kirchner deixou claro o papel estratégico do apoio governamental a esse setor no País. Nas palavras da presidente, não se tratava apenas de geração de novos postos de trabalho, mas também de balança comercial favorável, pois, no médio prazo, se esperava que a redução das importações fosse acompanhada de aumento equivalente das exportações.

Historicamente, as principais multinacionais do setor de máquinas agrícolas (AGCO, John Deere e CNH) trataram o mercado argentino como uma extensão do mercado brasileiro, principalmente no que tange à oferta dos produtos finais de maior valor agregado. As plantas industriais de tratores e colheitadeiras estavam concentradas no Brasil, que, por sua vez, abastecia os demais mercados sul-americanos.

Nos últimos 10 anos, a produção argentina de grãos cresceu em ritmo acelerado. A elevação dos preços internacionais das commodities agrícolas capitalizou os produtores rurais, gerando incentivos à expansão das áreas de cultivo (notadamente para soja e milho) e à introdução de novas tecnologias. Em condições normais, esse seria um cenário atrativo ao consumo de máquinas agrícolas. Mas as frequentes crises no mercado de divisas limitaram o atendimento dessa demanda via importações.

O Governo argentino, vislumbrando os potenciais transbordamentos de renda da agricultura para a indústria local e a oportunidade de melhorar a balança comercial de um setor historicamente deficitário (US$ 438 milhões em 2007), lançou mão de uma série de medidas voltadas à internalização da produção de máquinas agrícolas. Pelo lado da oferta, a partir de 2011, limitou-se a entrada de produtos estrangeiros de diversos segmentos industriais (inclusive de máquinas agrícolas), impondo-se exigências para a concessão de licenças de importação. No mesmo período, foram estruturados programas visando incentivar a produção industrial doméstica e destravar o investimento. Dentre esses, destaca-se o Regime de Incentivo à Fabricação Local de Bens de Capital, pelo qual as empresas do setor beneficiam-se de um bônus fiscal de 14% sobre o faturamento, utilizado no abatimento de outros tributos nacionais. Adicionalmente, o Programa de Financiamento Produtivo do Bicentenário conferiu vantagens creditícias (empréstimos em pesos, à taxa de juros fixa e subsidiada) para a realização dos investimentos de maior envergadura.

Pelo lado da demanda, o setor de máquinas agrícolas foi incluído no Programa de Financiamento Para a Ampliação e Renovação de Frota, que conta com oferta de crédito específica e um desconto (bonificación) de 7,5%, aplicado sobre a taxa de juros praticada pelo banco oficial.

Além da John Deere, outras multinacionais do setor perceberam o potencial do mercado interno argentino e, frente às dificuldades de acessá-lo através do comércio exterior, aproveitaram os incentivos existentes para aumentar sua representação no País. Novos investimentos foram realizados, sobretudo nos segmentos de tratores e colheitadeiras. Apesar de as vendas internas desses produtos não se terem recuperado integralmente desde a crise internacional e a frustração da safra 2008/09, a produção local cresceu aceleradamente (132,0% para os tratores e 110,8% para as colheitadeiras entre 2008 e 2013). Assim, o mercado interno argentino desses produtos — que, até 2008, era atendido em mais de 80% via importações — será, em 2014, pela primeira vez, abastecido majoritariamente pela produção nacional. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina, nos três primeiros trimestres de 2014, apenas 39,0% e 31,5% do valor das vendas de tratores e de colheitadeiras realizadas no País corresponderam a máquinas importadas.

Além disso, a Argentina já ensaia os primeiros passos para ingressar no grupo dos grandes exportadores de máquinas agrícolas. Impulsionadas, sobretudo, por um convênio assinado com a Venezuela, as exportações desse segmento cresceram 80,6% entre 2007 e 2013. Persistindo essa tendência, em breve, poderá ser confirmado o vaticínio da presidente argentina quanto ao equilíbrio na balança comercial do setor.

Para a indústria gaúcha de máquinas agrícolas, é preocupante a passagem do país vizinho de principal cliente externo a concorrente nos mercados sul-americanos e africanos. Nos últimos anos, a queda das vendas para a Argentina (-56,7% de 2007 a 2013) não gerou maiores efeitos adversos na indústria local, porque foi mais do que compensada pelo crescimento do mercado brasileiro. Porém, em 2014, com a contração do mercado interno, a indústria local está ressentindo-se da diminuição das compras do país vizinho.

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