América do Sul: transformações e permanências depois da Pink Tide

Os países da América do Sul têm compartilhado algumas experiências sociopolíticas comuns ao longo de sua história, com a notória exceção de Guiana e Suriname. Apesar das especificidades das trajetórias nacionais, essa experiência compartilhada é vista, entre outros episódios, nos processos de independência do século XIX, na experiência nacional-desenvolvimentista de meados do século XX, no ciclo de ditaduras militares, e, mais recentemente, na Pink Tide, ou seja, no conjunto de governos de esquerda e centro-esquerda que, com exceção da Colômbia, ditaram as políticas dos países da região na primeira década do século XXI. Nesse período, iniciado em 1998, com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, observou-se a chegada ao poder de governos com características comuns: Brasil em 2002, Argentina em 2003, Uruguai em 2004, Bolívia em 2005, Chile e Peru em 2006, Equador em 2007 e Paraguai em 2008.

Já o contexto internacional do início do século XXI apresentou como características principais a relevância da China na economia internacional e a centralidade do Oriente Médio e da Ásia Central na política externa norte-americana. Isso incentivou uma maior aproximação dos países da região. O gráfico apresenta uma síntese das características da trajetória socioeconômica da Pink Tide entre 1998 e 2014. Nele, observa-se o crescimento, a partir de 2003, dos preços das commodities, que se originou na expansão chinesa. O boom das commodities dinamizou o crescimento econômico, seja induzindo diretamente a atividade produtiva, seja aliviando as históricas restrições no balanço de pagamentos. Isso contribuiu para que, entre 2004 e 2008, a média anual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita da região fosse superior a 4,5%, conforme a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

A partir de 2003, ocorreu uma sustentada elevação dos salários mínimos. Em um ambiente de maior atuação estatal e de certa decepção com os resultados das prescrições do Consenso de Washington, observou-se o aproveitamento do boom para valorizar os salários e ampliar os programas de renda mínima, que contribuíram com a redução da pobreza e da desigualdade de renda. O crescimento retroalimentou-se das melhores condições da demanda interna e da intensificação dos fluxos comerciais. Em maior ou menor grau, ocorreu compatibilização de benefícios obtidos pelos atores sociais da região: trabalhadores viram rendimentos crescer; empresários expandiram negócios; e estratos médios sofisticaram seu consumo. A crise de 2008 pareceu não arrefecer essa trajetória. Após queda em 2009, os preços internacionais recuperaram-se. Entretanto, a partir de 2011, surgiram sinais de esgotamento deste ciclo de crescimento: os preços das commodities e os salários mínimos reais apresentaram tendência de estagnação e posterior queda, que se perpetua até o hoje.

A resposta da maioria dos governos às novas circunstâncias foi o ativismo estatal reativo. Com a possível exceção da Bolívia, os resultados não foram satisfatórios. As ações estatais dirigiram-se para os efeitos da inflexão da trajetória anterior, com ênfase nas políticas de controle de preços, subsídios, incentivos fiscais, entre outras. As causas, em sua maioria estruturais, não foram confrontadas. Subsistem problemas como um sistema produtivo dependente das commodities; um setor industrial diminuído e deslocado das cadeias produtivas globais; sistemas tributários ineficientes; problemas na infraestrutura, na educação, e mesmo nas instituições políticas carentes de reforma.

A Pink Tide foi bem-sucedida em modificar os padrões de exclusão social e de concentração de renda observado ao longo do século XX. Entretanto foi incapaz de converter o empuxo externo em um processo de crescimento autônomo e sustentável, não promovendo transformações mais intensas nas estruturas socioeconômicas sul-americanas. Seu desfecho ocorre em contexto de crise econômica e de turbulências políticas, com o fim do consenso social anterior. O ocaso iniciou-se no Paraguai, em 2012 e acelerou-se após a morte de Chávez em 2013. O momento atual compreende processos políticos com maiores ou menores graus de conflito, como observado na Argentina, no Peru e no Brasil. Entretanto há sinalização de inversão das políticas adotadas na última década: menor ativismo estatal, enfraquecimento das instituições supranacionais da região e uma tentativa de retorno às políticas liberais do final do século XX.

A ironia da trajetória da Pink Tide é que seu fim guarda certa semelhança com o colapso dos regimes autoritários da década de 70: a modificação do contexto internacional associa-se à ruptura da dinâmica econômica e, por extensão, do arranjo político vigente. A América do Sul aparenta continuar sendo objeto e não sujeito de seu próprio desenvolvimento.

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