Ambiente externo e indústria calçadista gaúcha

No período jan.-jul./02, o indicador acumulado de produção física do IBGE para a indústria gaúcha registrou crescimento de 3,7%, bem superior ao nacional (0,4%). O gênero vestuário, calçados e artefatos de tecidos, de expressiva participação na indústria do Rio Grande do Sul, apresentou uma taxa negativa de 3,1%, refletindo as dificuldades enfrentadas pelos produtores de calçados. O segmento calçadista ocupa uma posição de destaque na pauta de exportações gaúchas — cerca de 20% do valor total exportado.

O desempenho exportador é condicionado pela implementação de um amplo processo de reestruturação ocorrido na segunda metade da década de 90, que buscou trazer maior competitividade à indústria de calçados. Após a abertura da economia, a pressão da concorrência nos mercados interno e externo obrigou essas empresas a reduzirem custos de produção e a realizarem expressivos investimentos nos processos produtivos, através da terceirização de atividades e da incorporação de novos equipamentos e práticas modernas de gestão.

Ambiente externo e indústria calçadista gaúcha

A partir do segundo semestre de 2001, as exportações da indústria calçadista começaram a perder fôlego, em decorrência, sobretudo, da desaceleração da economia norte-americana e do aprofundamento da crise argentina. A queda de 12% no valor exportado, no período jan.-ago./02 em relação ao mesmo período do ano anterior, deve-se, principalmente, à forte contração das compras argentinas, que tiveram uma variação negativa de 92,4% no período considerado, e à redução de 10,1% das vendas para o Estados Unidos, juntas correspondendo a uma perda de US$ 124.833 mil no faturamento das empresas exportadoras gaúchas. Embora a diminuição das exportações de calçados para os Estados Unidos possa ser explicada pela retração da economia norte-americana, estudos realizados sobre a indústria calçadista brasileira identificaram, nos últimos anos, um crescimento apenas vegetativo das vendas brasileiras para aquele país em oposição à forte expansão das vendas de países asiáticos para esse mercado. Esses fatos recolocam a questão da concentração das vendas em poucos países, o que já é uma preocupação antiga das empresas desse setor.

No sentido de reduzir a dependência de poucos compradores, as empresas calçadistas vêm adotando dois tipos de estratégia: a primeira diz respeito à conquista de novos mercados, como a Nicarágua e a Romênia; a segunda busca aumentar as vendas para mercados ainda pouco explorados pela indústria gaúcha de calçados, como pode ser comprovado pelo expressivo crescimento das exportações direcionadas ao México (66,1%), à Holanda (30,0%), ao Canadá (26,5%) e à Alemanha (21,2%). Contudo a implementação da estratégia de diversificar mercados não conseguiu ainda compensar a queda nas compras dos dois principais países compradores.

As perspectivas do segmento calçadista para os últimos meses de 2002 não são muito favoráveis, quando se consideram a desaceleração da produção industrial e a instabilidade financeira da economia brasileira, o que compromete as vendas no mercado interno. O cenário externo, por sua vez, pode se agravar, dependendo dos desdobramentos do conflito Estados Unidos versus Iraque. A permanecer esse ambiente externo desfavorável, a indústria calçadista deverá encontrar dificuldades para atingir as metas de produção e de exportação previstas e já revistas ao longo do ano.

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