Alguns dos efeitos da valorização cambial

Uma das mais importantes variáveis macroeconômicas — a taxa de câmbio — vem-se valorizando nos últimos dois anos, no Brasil, não só frente ao dólar, mas também em relação às moedas dos 16 países com maior participação nas exportações brasileiras, como pode ser visto no gráfico.

De modo geral, a atenção dada ao comportamento atual do câmbio trata de suas conseqüências diretas sobre a balança comercial do País. Entretanto outros efeitos dessa valorização sobre a economia também merecem destaque, como é o caso de sua influência sobre as cadeias produtivas, os investimentos e a concentração de empresas exportadoras.

Em relação à produção nacional, é importante destacar que não só o setor exportador sofre algum tipo de desestruturação, mas outros elos da corrente produtiva podem ser afetados. Bens finais, antes produzidos internamente, vêm sendo substituídos por similares importados, favorecidos pelo câmbio barato, o mesmo ocorrendo com insumos e matérias-primas. Dados da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex) mostram que, em 2005, os bens de capital, os intermediários e os de consumo duráveis e não duráveis tiveram aumento nas quantidades importadas, ou seja, por categoria de uso, apenas os combustíveis reduziram seu volume de importação. Inclusive muitos exportadores passaram a adquirir mais insumos e matérias-primas no exterior, beneficiados pelo drawback, na tentativa de segurar sua queda de rentabilidade. No caso de mercadorias exportáveis, cuja produção é intensiva em mão-de-obra (como ocorre com os calçados do RS por exemplo) ou que dependem fundamentalmente de fornecedores nacionais, o efeito negativo de uma moeda nacional valorizada é mais imediato.

Já para setores com maior vantagem competitiva em relação aos seus concorrentes internacionais ou capazes de aumentar sua parcela de componentes importados, esse efeito é menor. Mas, assim como ocorreu no período 1995-98 — quando o real também se manteve valorizado e as cadeias produtivas foram afetadas com o rompimento de alguns de seus elos —, corre-se o risco de repetir-se o quadro, apesar de o cenário internacional atual ser diferente. Em contrapartida, o câmbio valorizado estimula a modernização do parque produtivo nacional via importação de máquinas e equipamentos mais avançados tecnologicamente, contribuindo para acréscimos de produtividade.

Outro efeito negativo da valorização do real é o aumento da concentração de empresas exportadoras via saída do mercado daquelas mais fracas e de menor porte, por terem maior custo de produção e maior fragilidade financeira para continuar exportando. E, uma vez perdidos os mercados já conquistados, sua retomada geralmente é bem mais difícil e onerosa. Dentre essas empresas que se estão retirando do mercado exportador, cabe destacar o predomínio daquelas de capital nacional, como é o caso das ligadas às vendas externas de calçados, confecções e móveis. Tal fato, ao concentrar ainda mais as exportações nas mãos de poucas e grandes empresas, muitas delas multinacionais, também aumenta a vulnerabilidade. Isto porque as decisões sobre o que, quanto, para quem e como exportar, muitas vezes, fazem parte de uma estratégia global dessas empresas, desconsiderando os interesses nacionais nas suas tomadas de decisão.

Alguns dos efeitos da valorização cambial

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