A Venezuela e o Brasil

Dentre as diversas homenagens ao recém-falecido Hugo Chávez, há uma interessante lembrança de Fidel Castro de uma visita sua à Venezuela, em 1959, quando teria dito que a pátria de Simon Bolívar deveria liderar a união dos povos americanos. Cerca de 40 anos depois, as ações da política externa venezuelana passaram a contribuir, de forma decisiva, para a comunidade de América Latina e Caribe e tornaram o vizinho um aliado fundamental ao interesse brasileiro na integração da região.

No começo do século XXI, ventos de mudança política produziram um movimento apenas comparável, em abrangência geográfica, sincronia temporal e efeito transformador, com o processo de independência de 200 anos atrás. O ponto de partida dessa mudança histórica foi a eleição de Hugo Chávez à presidência, em 1998, seguida por Lula no Brasil, em 2002; Néstor Kirschner na Argentina, em 2003; Tabaré Vázques no Uruguai, em 2005; Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador e Daniel Ortega na Nicarágua, em 2006 — numa sequência de eleições que continuou e ergueu uma onda esquerdista na maior parte da América Latina e Caribe.

Dois aspectos desse movimento transformador retomam temas presentes na independência, a autodeterminação e a integração política e econômica. De certa forma, o que está se passando hoje é um passo adiante na concretização de algo já percebido como necessário nos idos de 1810, principalmente pelas ideias premonitórias de Bolívar: afastar-se dos Estados Unidos e construir uma comunidade latino-americana e caribenha.

A perseguição desses objetivos veio sendo liderada, num primeiro momento de maneira paralela, por iniciativas de Brasil e Venezuela, como a criação da ALBA e o fortalecimento do Mercosul. Entretanto, de forma natural, e ao arrepio de quantos falavam em uma disputa de liderança, esses movimentos foram se alinhando numa convergência que não apenas anulou a proposta norte-americana de uma zona de livre comércio continental, a ALCA, como se consolidou com o ingresso da Venezuela no Mercosul e a criação da UNASUL, do Conselho de Defesa Sul-Americano, do Banco do Sul e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos.

Integração e autonomia são desígnios que se combinaram com retomada do crescimento econômico, redistribuição de renda, redução da pobreza e melhorias sociais, que têm caracterizado a atual conjuntura. Essas novas realidades deram oportunidade à abertura de uma via alternativa de desenvolvimento que se poderia descrever como regionalista e endógena, tendo como centro dinâmico a ampliação do mercado interno propiciada pela expansão da renda das classes populares.

Oposto ao neoextrativismo, cuja dinâmica é dada pelo crescimento das exportações de produtos naturais, o regionalismo endógeno seria um modelo baseado em expansão do consumo de massa, avanço da indústria, elevação de produtividade e ganhos de complementaridade através da integração das economias da região. Esses objetivos são viabilizados pela realocação do excedente e redirecionamento do investimento com um novo padrão de financiamento: em lugar do recurso ao endividamento externo, redistribuição da renda do setor extrativista e mudança do padrão de gasto público.

Há duas vias na construção desse novo modelo latino-americano, cujos casos típicos são Brasil e Venezuela. Por razões que vão da tradição histórica distinta ao modo como o enfrentamento político veio acontecendo e a seu resultado no sentido da mudança na correlação de forças entre as classes sociais e forças organizadas em cada caso, houve uma maior ou menor permanência dos interesses das oligarquias tradicionais e seus aliados no sistema financeiro e nas grandes corporações empresariais e multinacionais, aí incluída a grande mídia, a influenciar as decisões dos novos governos. Manifestando seu usual reducionismo, os conservadores falam em “radicalismo” e “moderação” e os atribuem à personalidade das lideranças.

Há duas vias na construção desse novo modelo latino-americano, cujos casos típicos são Brasil e Venezuela. Por razões que vão da tradição histórica distinta ao modo como o enfrentamento político veio acontecendo e a seu resultado no sentido da mudança na correlação de forças entre as classes sociais e forças organizadas em cada caso, houve uma maior ou menor permanência dos interesses das oligarquias tradicionais e seus aliados no sistema financeiro e nas grandes corporações empresariais e multinacionais, aí incluída a grande mídia, a influenciar as decisões dos novos governos. Manifestando seu usual reducionismo, os conservadores falam em “radicalismo” e “moderação” e os atribuem à personalidade das lideranças.

Uma indefinição permanece. O novo papel do Estado, ou avançará, no sentido de iniciar uma transição ao socialismo, ou ficará restrito a uma reforma do capitalismo que fortaleça a autonomia de suas burguesias nacionais e promova sua ascensão à situação de competidoras no cenário decisivo do mercado mundial, a partir da consolidação, com o apoio de seus governos, da condição de “campeões” empresariais regionais.

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