A valorização cambial no Brasil

Desde meados de 2004, a taxa de câmbio mostrou persistente valorização do real frente às moedas dos principais parceiros comerciais do Brasil. As lideranças de setores exportadores têm manifestado preocupação e solicitado providências governamentais. Os analistas econômicos evidenciaram apreensão, em vista das ameaças que a circunstância estabelece à manutenção da performance favorável da balança comercial. Nessa questão, não estão envolvidas “apenas” as possibilidades de continuidade do fortalecimento de uma condição externa menos vulnerável. Se isso fosse pouco — de forma alguma o é —, colocar-se-ia em pauta, também, o fato de que o aumento do saldo da balança comercial se tem constituído como elemento dinamizador do crescimento da produção e do emprego nacionais, em um quadro que, dada a política monetária, tenderia, fatalmente, à desaceleração. Até onde alcançam nossas informações, o bom desempenho do comércio externo tem continuado a resistir ao câmbio adverso.

Aumentos das taxas de juros de certo país são, usualmente, acompanhados por valorização cambial da moeda desse país. Isso ocorre, primeiro, porque a elevação dos juros aumenta a preferência dos agentes econômicos por reter mais ativos financeiros, que pagam juros, em detrimento de reter moeda(s) estrangeira(s). Em segundo lugar, porque o crescimento da rentabilidade desses ativos amplia os fluxos de financiamentos externos para o país. Os dois aspectos citados interferem no mercado cambial, aumentando a oferta e  diminuindo a demanda de divisas estrangeiras. Assim, acionam a valorização cambial. A ação desse “mecanismo” tem sido apontada pelos analistas no caso da apreciação do real. Cabe concordar com o diagnóstico, contudo, sem exagerar a responsabilidade da política monetária. Outros fatores carregam a responsabilidade maior.

Desde 2002, houve grandes mudanças nas contas do balanço de pagamentos nacional. Na conta de transações correntes, partiu-se de um déficit de US$ 23,2 bilhões em 2001 para um superávit de US$ 11,7 bilhões em 2004. Para 2005, algumas projeções apontam um superávit de US$ 12 bilhões. O Brasil saiu da persistente posição de grande demandante de financiamentos para uma posição de amortização de sua dívida externa líquida. Por isso, o Banco Central tem sido capaz de antecipar os pagamentos ao FMI. Em larga medida, a valorização cambial havida é inerente à melhora das contas externas.

As causas dessa melhora são todas as circunstâncias que favoreceram a formação dos enormes superávits da balança comercial. Entre elas, estão a expansão do comércio mundial e o aumento dos preços internacionais das exportações brasileiras. Entretanto o fator mais decisivo é o elevado grau de competitividade alcançado pela produção nacional, que tem acelerado o crescimento das quantidades exportadas. Quando a cotação do dólar cai e a performance da balança comercial resiste, o que, de fato, surpreende é o vigor da competitividade da produção nacional em escala mundial.

A valorização cambial no Brasil

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