A reinserção do Irã na economia mundial e as oportunidades para o Brasil

As sanções econômicas da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o Irã foram suspensas no dia 16 de janeiro de 2016, seis meses após a assinatura do acordo nuclear celebrado entre o grupo P5+1 (Estados Unidos, China, França, Reino Unido, Rússia e Alemanha) e o país persa. Os efeitos imediatos — descongelamento dos ativos financeiros do País no exterior e o seu retorno ao mercado internacional de petróleo — consolidam-se, então, como instrumentos para a alavancagem da economia iraniana. Nesse sentido, tem-se a expectativa de que o Irã possa realizar negócios com os mais variados parceiros comerciais, dentre eles o Brasil, no sentido de recompor sua infraestrutura econômica e logística.

As sanções contra o Irã datam da Revolução Islâmica no País, em 1979, quando o Governo norte-americano congelou os ativos financeiros iranianos em bancos americanos e suas subsidiárias. Em 1995, os EUA decretaram o embargo econômico ao Irã e, em 1996, anunciaram sanções a qualquer empresa que investisse no setor de óleo e gás do País. A partir de 2007, além dos EUA, a União Europeia e a ONU impuseram sanções econômicas e comerciais mais restritivas em retaliação ao programa nuclear iraniano.

Assim, levando-se em consideração o incremento do papel do Estado na economia do País durante todo o período de sanções, acredita-se que, agora, com o acesso aos seus ativos financeiros e à renda da venda de seu petróleo no mercado internacional, o Governo iraniano aumente suas importações (medicamentos, equipamento industrial, bens duráveis, matérias-primas, etc.).

O País, que conta com uma população de aproximadamente 82 milhões de pessoas, deixou de realizar investimentos em infraestrutura nos setores de estradas, transportes, petróleo e gás por conta das últimas sanções. Adicionalmente, a injeção de dinheiro na economia iraniana pode dar-se, também, pelo ajuste da dívida do Estado com seus fornecedores domésticos ao longo desse período. Com base nos dados de 2011 do UN Comtrade data, os principais produtos importados pelo Irã foram combustíveis, veículos, ferro, aço, commodities em geral, plásticos e seus derivados, gordura animal e vegetal, material elétrico-eletrônico e produtos farmacêuticos.

Esse cenário de forte expectativa de gastos do Governo iraniano abre uma série de oportunidades para o Brasil estreitar seus laços comerciais e melhorar sua balança de comércio com o Irã. O marco emblemático das relações recentes entre os dois países foi a Declaração de Teerã no ano de 2010, em que, frente à questão nuclear iraniana, Brasil, Turquia e Irã anunciavam um acordo que visava à suspensão das sanções econômicas e à consolidação de confiança entre o Irã e o P5+1. A Declaração de Teerã foi rejeitada pelo P5+1, e, pouco depois, novas sanções econômicas, propostas pelos EUA, foram impostas aos iranianos.

Nesse contexto, o fim das sanções econômicas contra o Irã abre novas possibilidades de parcerias para as relações Brasil-Irã. O decreto presidencial que revogou as sanções da ONU ao Irã, aplicadas pelo Governo brasileiro, foi publicado no Diário Oficial da União no dia 12 de fevereiro deste ano. No dia anterior, a Presidente Dilma Rousseff reuniu-se com o embaixador iraniano em Brasília, para tratar da retomadas das relações econômicas e comerciais entre os dois países.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o valor das exportações brasileiras passou de US$ 491 milhões em 2002 para US$ 1,6 bilhão em 2015, atingindo a marca histórica de US$ 2,3 bilhões em 2011. Em 2010, o Irã havia se tornado o segundo maior importador de carne brasileira, ficando atrás apenas da Rússia.

Em 2015, a maior parte das exportações brasileiras para o Irã foi composta por produtos básicos e semimanufaturados, como carne bovina, milho, soja e açúcar. Quanto ao Rio Grande do Sul, sua participação no total das exportações brasileiras para o país persa foi de 8,0%, atingindo o valor de US$ 133 milhões. Desse total, US$ 99,8 milhões estão relacionados ao complexo da soja (grão e óleo) e US$ 24,8 milhões dizem respeito às exportações de milho. Entre os demais produtos, encontram-se ainda carne de frango congelada, fumo manufaturado, bombas e compressores.

Em vista disso, no âmbito federal, faz-se necessária a elaboração de uma inserção comercial estratégica que promova as exportações brasileiras e os investimentos de empresas brasileiras no Irã. Quanto à esfera estadual, é importante que o setor privado do Rio Grande do Sul e o Governo do Estado se façam presentes em todo esse processo, haja vista a possibilidade de incremento das exportações gaúchas via reinserção do Irã na economia mundial.

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