A recuperação por trás do PIB

Os resultados do PIB no segundo trimestre, tanto na economia brasileira como no RS, confirmam a recuperação do nível de atividade em curso este ano e desautorizam as projeções excessivamente pessimistas que têm prevalecido desde meados do ano passado. No Brasil, o PIB cresceu 1,5% no segundo trimestre (em relação ao trimestre imediatamente anterior, na série com ajuste sazonal), o que equivale a um ritmo anualizado de cerca de 6,0%. No RS, o PIB cresceu 6,4% na mesma base de comparação. Em relação ao mesmo período do ano anterior, as taxas de crescimento foram de 3,3% e 15,0%, no Brasil e no RS. Ainda que estes resultados tenham sido inflados pela boa safra agrícola, a expansão não esteve restrita a esta atividade. Por certo, o impacto deste evento nos resultados dos próximos trimestres será menor, o que deve resultar em uma desaceleração no crescimento, principalmente no RS. Contudo, o processo de recuperação tende a prosseguir, ainda que em ritmo mais moderado.

Em nível nacional, o crescimento de 3,3% no segundo trimestre ajudou a compensar o desempenho decepcionante do primeiro trimestre (expansão de 1,9% em relação ao mesmo período do ano anterior). No acumulado do ano, a taxa de crescimento é de 2,6%. As mudanças na dinâmica setorial entre um trimestre e outro, contudo, foram importantes. Pelo lado da oferta, a indústria de transformação cresceu 4,6% no segundo trimestre, interrompendo uma sequência de sete trimestres consecutivos de quedas. A construção civil registrou crescimento de 4,0%, após queda de 1,3% no primeiro trimestre. Nos serviços, as atividades de comércio e transportes mostraram recuperação, com expansões de 3,5% e 2,7% no segundo semestre, após terem registrado desempenho pífio no primeiro. Por fim, mas não menos importante, entre os componentes da demanda, a formação bruta de capital fixo registrou dois trimestres consecutivos de alta, de 3,0% no primeiro trimestre e 9,0% no segundo, recuperando-se da queda observada ao longo de todo o ano passado. Esta reversão reflete, de um lado, o esgotamento de um longo ciclo de estoques e capacidade ociosa, gerado na estagnação de 2011/2012, e, de outro, os incentivos governamentais para a ampliação dos investimentos, sobretudo as taxas atrativas do BNDES.

Deve ser acrescentado, também, que o resultado do primeiro semestre como um todo foi influenciado negativamente pela interrupção, para manutenção, nas plataformas da Petrobras. Este evento se refletiu, pelo lado da oferta, em queda de 6,6% da produção da indústria extrativa no primeiro trimestre. Embora a recuperação desta atividade já tenha iniciado no segundo trimestre, com crescimento de 1,0% em relação ao primeiro, na série com ajuste sazonal, ainda há queda de 5,6% no acumulado do ano. Pelo lado da demanda, a redução da produção de petróleo também contribuiu para a queda de 5,7% das exportações no primeiro trimestre. A continuidade do processo de normalização das atividades da Petrobras nos próximos trimestres deve reforçar, portanto, o processo de recuperação, podendo compensar a redução esperada da contribuição da agropecuária nos próximos trimestres.

Na economia gaúcha, a recuperação da safra da soja foi, evidentemente, a grande responsável pelo crescimento de 15,0% entre o segundo trimestre e o seu equivalente no ano anterior, acumulando no ano uma expansão de 8,9%. Porém, percebe-se que a recuperação da economia gaúcha não ficou restrita à produção de soja e atividades relacionadas. Tal como na economia brasileira, ocorreram mudanças importantes na dinâmica setorial entre o primeiro e o segundo trimestres: a indústria de transformação cresceu 4,6%, após ter registrado queda de 0,8% no primeiro trimestre; a construção civil cresceu 4,0%, após ter registrado queda de 0,3%; e os serviços aceleraram o ritmo de crescimento, de 2,1% para 3,4%.

É verdade que uma parte da recuperação da indústria de transformação também esteve relacionada com a boa safra agrícola. A atividade de máquinas e equipamentos, na qual o segmento de máquinas agrícolas é um dos mais relevantes, apresentou crescimento de 11,5%. Porém, também deve ser notado que a produção de máquinas agrícolas não se destina exclusivamente ao RS (parte é exportada para o resto do mundo e parte para o restante do país). Ademais, excluindose estes bens, a produção da indústria ainda cresceria 4,1%. Por outro lado, os produtos alimentícios cresceram 4,8% no segundo trimestre, mas ainda apresentam queda de 0,2% no acumulado do ano. Como o resultado da safra se reflete com alguma defasagem nesta atividade, a expectativa é de continuidade do crescimento da indústria gaúcha nos próximos trimestres.

Para muitos analistas, o crescimento da indústria no segundo trimestre foi excessivo, levando ao acúmulo de estoques, especialmente em nível nacional. Esse movimento ajuda a explicar as oscilações mensais nesta atividade e pode, de fato, provocar uma desaceleração no próximo trimestre. Os indicadores de consumo e renda, contudo, mostram recuperação. Neste sentido, mesmo na hipótese de desaceleração ou queda da produção industrial nos próximos meses, as perspectivas para o terceiro trimestre e, principalmente, para o final ano, ainda são positivas. Não será surpresa se o crescimento do PIB superar a expectativa de 2,5% na economia brasileira e 6,0% no RS.

A recuperação por trás do PIB

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