A queda do preço do petróleo: uma trama saudita?

Nos últimos meses, a brusca retração do preço do petróleo no mercado mundial tem chamado a atenção da comunidade internacional, que aguarda receosa os seus desdobramentos. De fato, a partir de junho de 2014, o preço dessa commodity despencou dos US$ 115 por barril e rompeu o patamar de US$ 50, estabilizando-se um pouco acima desse nível em março de 2015. Ao analisar as causas desse processo, vemos que há o encontro de uma baixa demanda (motivada pela estagnação na Europa e no Japão e pelo arrefecimento da expansão chinesa) com um recrudescimento da oferta, em virtude da produção crescente na Rússia, no Iraque e na Líbia e do avanço da extração não convencional, como o petróleo de folhelho (shale oil) nos Estados Unidos, as areias betuminosas no Canadá e o Pré-Sal no Brasil.

Ao contrário do que se poderia esperar, a posição da Arábia Saudita — principal produtor, exportador e dono das maiores reservas — não foi de preocupação. Em documentos e declarações oficiais, os sauditas asseveraram sua tranquilidade em relação à queda do valor do petróleo, salientando que o movimento especulativo dos mercados de capitais faz com que essa commodity flutue repetidamente. No entanto, como 90% das divisas externas que chegam a Riad são obtidas através da exportação de petróleo, levantou-se uma série de dúvidas sobre a sinceridade dessas afirmações, que poderiam estar ocultando outras motivações, de natureza não econômica, mas geopolítica.

Com efeito, há muitos anos, a postura dos sauditas no tocante ao preço do petróleo é diferente quando comparada com a de outros Estados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), tais como Irã e Venezuela. Enquanto iranianos e venezuelanos, dentre outros, tencionam manter elevado o valor do produto, para auferir maiores receitas e levar a cabo seu projeto político, os sauditas parecem mais interessados na sustentabilidade da sua produção petrolífera: temem que os custos elevados incentivem a ampliação das fontes alternativas de energia e de extração mineral. Ademais, os outros países da OPEP gostariam que os sauditas desempenhassem o papel de swing state, ou seja, o de País que diminui ou aumenta sua produção petrolífera para alterar o preço desse item, o que atualmente não é bem aceito na Arábia Saudita.

Em boa medida, o contraste entre Riad e Teerã nesse ponto deve-se a diferenças políticas e demográficas, na medida em que o Irã é muito mais populoso (tem 77 milhões de habitantes, contra 28 milhões na Arábia Saudita) e tem um sistema político menos oligárquico, o que aumenta as pressões e as demandas sobre ele. Além disso, o País enfrenta um conjunto de sanções internacionais que têm atravancado seu crescimento econômico. Desse modo, como se trata de dois Estados rivais no sistema internacional, especula-se que os sauditas estejam forçando a baixa do preço do petróleo para minar o Governo iraniano.

Nesse contexto, muitos asseveram que a ofensiva saudita não se limitaria a prejudicar o Irã, mas também os Estados Unidos. Isso porque a produção norte-americana vem prosperando desde 2012, com a extração do folhelho, revertendo uma queda que vinha desde a década de 70. Entretanto, o montante para a realização dessa atividade é significativo, e o break even (preço mínimo do barril a partir do qual a produção se torna economicamente viável) situar-se-ia entre US$ 50 e US$ 70. Assim, Riad eliminaria um potencial competidor, assegurando uma maior margem de manobra com Washington e no mercado petrolífero. De quebra, daria uma resposta firme à reaproximação entre Estados Unidos e Irã, que vai de encontro aos seus interesses. Ressalta-se, ainda, que a morte do Rei Abdullah — sucedido por seu irmão Salman — não surtiu mudanças na postura do País, que segue com a ideia de manter baixo preço do petróleo.

No entanto, as reais pretensões sauditas parecem bem mais modestas, sem o intuito de dificultar a exploração de petróleo não convencional, por duvidarem da possibilidade de sucesso dessa empreitada. Na realidade, a recusa em reduzir a produção estaria calcada em duas razões: em primeiro lugar, em outras conjunturas, a Arábia Saudita tomou uma atitude nesse sentido, mas não logrou elevar os preços como desejava e ainda viu seu market share reduzido, beneficiando somente os outros membros da OPEP. Ademais, justamente por saber que o preço do petróleo está abaixo do break even para muitos produtores, o Governo saudita crê ser inevitável uma diminuição do ritmo de investimentos nos Estados Unidos e em outros lugares, o que, de fato, já vem ocorrendo. Nessas circunstâncias, não valeria a pena cortar a produção quando empresas estrangeiras já se veriam obrigadas a fazê-lo.

A despeito da manobra saudita, não se pode afirmar que o valor do petróleo vai manter sua trajetória decrescente ou se haverá uma reversão desse fenômeno em breve. Historicamente, verifica-se uma grande oscilação no preço do produto, tanto por alterações na oferta e na demanda quanto por mudanças nas expectativas dos agentes econômicos, que também variam abruptamente conforme as circunstâncias. Ainda assim, é imperativo observar os desdobramentos futuros das negociações entre o Irã e o P5 + 1 (EUA, China, Rússia, França, Alemanha e Reino Unido). Como as tratativas avançaram, espera-se um levantamento gradual das sanções ao Irã, o que poderá implicar um aumento significativo nos investimentos em seus campos petrolíferos. Isso, por sua vez, voltaria a pressionar a oferta dessa commodity, retomando a perspectiva de uma nova baixa no preço do petróleo.

drope7

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