A posição do Brasil nas cadeias globais de valor

Considerando a crescente interconectividade das economias e a importância que as cadeias globais de valor (CGVs) estão adquirindo no comércio internacional, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em parceria com a Organização Mundial do Comércio (OMC), desenvolveu um estudo inovador sobre o tema, divulgado em 2013, com dados até 2009. A partir de uma análise global de insumo-produto que descreve as interações entre indústrias e fornecedores de 58 economias (dentre as quais o Brasil) — e que representam 95% da produção global —, o estudo detecta o Valor Adicionado das diferentes etapas de produção das CGVs. O termo CGVs aplica-se para a dispersão das cadeias de valor pelo mundo, seja através da distribuição de estágios de produção de uma firma entre diversos países ou pela terceirização de parte da cadeia de valor para parceiros externos. Dada a crescente dispersão internacional das atividades produtivas entre países e a distribuição desigual do valor ao longo da cadeia de valor, o indicador mais adequado da competitividade de um país é sua participação nas exportações em termos de Valor Adicionado.

Nos países desenvolvidos como Japão, Estados Unidos e União Europeia, dado o tamanho de suas economias, uma maior parcela da cadeia de valor é produzida internamente. De forma semelhante, países grandes não membros da OCDE, como Brasil, China e Índia, tendem a incorporar maior Valor Adicionado doméstico do que países menores como Malásia e Singapura. O Brasil apresenta um dos índices mais elevados de Valor Adicionado doméstico em suas exportações (91%) e, portanto, baixa incorporação de Valor Adicionado estrangeiro nas mesmas. Tal fato é um indicador de abundância de insumos, mas, também, de economia protegida, fechada, que produz relativamente poucos bens exportados que demandam componentes vindos do exterior

Um dos indicadores utilizado para medir a participação dos países em CGVs discrimina qual o percentual das exportações de um país que são parte das CGVs, tanto pelos vínculos a montante (para trás) — ao medir o Valor Adicionado estrangeiro embutido nas exportações do país — como a jusante (para frente) — ao medir o Valor Adicionado doméstico do país contido nas exportações de outros países. A soma de ambos fornece uma aproximação do que pode ser considerado um índice de participação nas CGVs. No caso brasileiro, o vínculo a montante é de apenas 9%, enquanto a maior participação nas CGVs ocorre a jusante, com 24% das exportações totais sendo utilizadas como bens intermediários nas exportações de outros países.

No Brasil, por exemplo, quando o Valor Adicionado é utilizado como medida das exportações, os Estados Unidos desloca a China como principal mercado de destino das exportações brasileiras, refletindo, em parte, o fato de que uma grande proporção das exportações totais brutas para a China é constituída por commodities básicas que são processadas naquele país e, posteriormente, reexportadas, inclusive para os Estados Unidos. Da mesma forma, a posição dos Estados Unidos como principal origem das importações brasileiras, em 2009, fica fortalecida, quando medida em termos de Valor Adicionado, refletindo o conteúdo doméstico relativamente elevado das exportações dos Estados Unidos em comparação com o de outros países.

Outro aspecto interessante ressaltado no relatório é que os países diferem na sua colocação na cadeia de valor, dependendo da sua especialização, e, portanto, o usufruto dos benefícios é diferenciado, uma vez que o tipo de especialização está relacionado com o maior ou menor grau de valor adicionado na cadeia. Por exemplo, ativos de conhecimento, tais como P&D, design, dentre outros, geram maior Valor Adicionado na cadeia do que montagem de produtos ou fornecimento de matérias-primas. Desse modo, a inserção de um país na cadeia de valor pode afetar o grau de benefícios obtidos pela participação nas CGVs.

O relatório da OCDE/OMC demonstra que a participação do Brasil nas CGVs ocorre, principalmente, nos fluxos a jusante, isto é, aproximadamente um quarto dos produtos brasileiros exportados são importados por outros países, transformados e reexportados. Esse elevado grau de participação para frente está relacionado, dentre outros fatores, à grande exportação brasileira de recursos naturais, tais como produtos agrícolas, mineração, químicos e metais básicos.

As estatísticas do comércio internacional em termos de Valor Adicionado proporcionam uma nova perspectiva do peso das economias, quando comparadas com a visão transmitida pelas estatísticas das exportações brutas. Dada a relevância econômica das CGVs, o desenho e a implementação das políticas econômicas e industriais do País deveriam levar em conta o Valor Adicionado. Nesse sentido, a comprovação de que a participação brasileira nas CGVs é, principalmente, através da exportação de insumos e matériasprimas, que, posteriormente, são processados e reexportados por outros países, leva a crer que a inserção do País nas cadeias de valor não é das mais favoráveis e deveria sofrer um processo de upgrade.

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