A política econômica do Governo Dilma e a inflação

A performance relativamente medíocre da economia brasileira nos últimos anos, associada a uma inflação recorrentemente no limite da meta, vem instrumentalizando os opositores do Governo Dilma com argumentos críticos fáceis, mas enganosos. O que usualmente não se diz é que Dilma passou a coordenar o País quando todas as mazelas do Plano Real já se haviam manifestado, e vem conseguindo enfrentá-las com surpreendente sucesso, sem impor quaisquer descontinuidades políticas ou contratuais.

A base do Plano Real é a âncora cambial: quando a inflação se eleva, o Banco Central sobe as taxas de juros, atraindo divisas do exterior e impondo a valorização real do real. Isso aprofunda a exposição competitiva dos produtores internos de bens passíveis de importação, gerando desemprego (âncora salarial) e deprimindo a propensão a investir da economia (âncora de demanda).

Ao preservar as linhas mestras da política de FHC, Lula beneficiou-se da desvalorização cambial de 2002 (associada à expectativa de sua eleição). Ao longo de seus oito anos de governo, o real sofreu uma valorização nominal de 103,07% e real de 197,6%. Isso deprimiu a inflação, dando eficácia às políticas distributivas assentadas na elevação do salário e nas transferências públicas.

Quando Dilma assumiu, a taxa de câmbio real do real com o dólar correspondia a 30,49% da taxa vigente no último mês do Governo FHC. E como o salário médio havia se elevado 11% acima da inflação durante o Governo Lula, a relação câmbio/salário levou a exposição competitiva da indústria brasileira ao paroxismo. Nesse quadro, a depressão dos investimentos privados e a estagnação pareciam inexoráveis. A única maneira de impedi-las seria a desvalorização do real. Mas as consequências previsíveis eram inflação em alta e reconcentração da renda.

Dilma conseguiu driblar esses desafios apelando para uma gestão fiscal voltada ao controle da inflação e à distribuição da renda. Explorando o poder competitivo dos bancos públicos e a liquidez externa pós 2008, Dilma impôs uma redução das taxas de juros, deprimindo os dispêndios do Governo com a rolagem da dívida, sem ferir a autonomia do Banco Central. Isso permitiu a depressão do IPI sobre automóveis e eletrodomésticos; que se refletiu na depressão relativa dos preços dos bens de consumo duráveis e na sustentação do nível de atividade da economia. Simultaneamente, Dilma resgatou a construção civil, via PAC e Minha Casa Minha Vida, impôs um rígido controle sobre os preços públicos (gasolina, gás, eletricidade) e ampliou os programas redistributivos.

Esses movimentos não foram suficientes para impedir a depressão da taxa de crescimento da economia, mas retiraram do horizonte a disjuntiva “estagnação versus inflação (fora da meta)”. E o salário médio real no trabalho principal cresceu 17,63% em 39 meses; invertendo o movimento do segundo Governo FHC, quando a desvalorização do real se fez acompanhar de um decréscimo de 8,24% no salário real. A tônica da Gestão Dilma é exatamente esse descolamento entre câmbio, inflação e salário real. Enquanto as variações cambiais explicavam 65% (R2 Ajustado) da inflação no segundo Governo FHC, 53,7% no primeiro Governo Lula e 16,4% no segundo Governo Lula, elas não passam nos testes de significância para a inflação na Gestão Dilma.

A despeito de correta, a estratégia de rompimento com a ancoragem cambial ainda não se realizou plenamente. Além disso, a elevação dos juros internacionais em 2014 somou-se à maior estiagem dos últimos 84 anos, impondo a depressão do nível de atividade e a elevação do preço dos alimentos. Estes, aliás, vêm subindo acima da inflação nos últimos 14 anos. Urge articularem-se as políticas de distribuição de renda, de controle de preços e de apoio à agricultura familiar e à produção de alimentos. Além disso, a elevação salarial vem impondo (via custo de oportunidade) a elevação dos preços dos serviços (não importáveis) nos setores de livre ingresso. E os serviços com preços regulados (filhos da privatização) continuam a pressionar a inflação com reajustes exorbitantes. Mais do que mudar, é preciso aprofundar a
política em curso, priorizando a produção de alimentos e impondo um choque de competitividade aos serviços regulados.

A política econômica do Governo Dilma e a inflação

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