A persistente crise da indústria calçadista gaúcha

As informações sobre o desempenho da indústria gaúcha de calçados no período jan.-abr./07, comparadas com as de igual período de 2006, mostram um agravamento das dificuldades enfrentadas. Nesse período, as vendas externas, em pares e em valores, caíram 13,8% e 1,7% respectivamente, enquanto a produção registrou uma drástica redução de 15%. As explicações para esses resultados não são novas: além do excepcional crescimento da produção e das exportações chinesas, contribuem para a crise as condições macroeconômicas adversas.

A perda de competitividade dos calçados gaúchos decorre, em larga medida, do tipo de ajuste realizado pela indústria calçadista gaúcha frente às mudanças estruturais da década de 90 (abertura econômica indiscriminada e estabilização monetária com real valorizado), que indicavam a necessidade de alterações na forma de inserção desses produtores no mercado internacional.

No ajuste às novas regras competitivas, as empresas buscaram a redução de custos, a diversificação e a ampliação dos mercados externos, estratégias que não lograram, contudo, impedir as subseqüentes quedas acentuadas na produção e nas exportações de calçados, resultando em perda de participação no mercado internacional. Em 1999, a desvalorização do real possibilitou a retomada das exportações, embora a produção ainda enfrentasse sérios entraves. Tal recuperação, no entanto, teve fôlego curto, visto que foi interrompida, dessa vez, pela crise argentina e pela desaceleração da economia norte-americana, principais mercados dos calçados gaúchos.

Para sobreviver nesse cenário, além das estratégias de diversificação e ampliação dos mercados externos, algumas empresas procuraram reposicionar seu produto: sair do segmento de calçados padronizados e de preços baixos (commodity), para ingressar na produção especializada em calçados de maior valor agregado, vendidos em nichos de mercado e em volumes menores. Para tanto, as empresas, principalmente as de médio e grande portes, investiram em qualidade dos produtos, design e marca, com o apoio do Programa de Promoção das Exportações (Brazilian Footwear), iniciativa conjunta da Abicalçados e da Apex-Brasil, que vêm incentivando a mudança no modelo exportador: venda de calçados com marca e design próprios e controle dos canais de distribuição.

A implementação dessa estratégia explica o crescimento das exportações em 2004, favorecido pelo aumento no preço médio do calçado. Tal fato repetiu-se em 2005: queda nas quantidades e elevação mais do que proporcional nos preços. Embora a tendência à elevação do preço médio tenha permanecido nos dois anos seguintes, a queda no número de pares exportados é bem superior à variação positiva nos preços. Esse resultado mostra o fôlego curto de uma estratégia de recuperação e conquista de mercado baseada na agregação de valor e na diversificação de clientes, em um ambiente de continuada valorização da moeda nacional.

A recuperação da competitividade dos calçados gaúchos, nesse contexto de real valorizado e concorrência chinesa, requer um esforço conjunto de empresas, entidades de classe e Governo, no sentido de buscar uma nova forma de reinserção externa, através do contínuo aumento do valor agregado dos produtos do setor e da ampliação de mercados, diversificando os canais de comercialização. Às empresas, cabe investir em pesquisa e tecnologia e em design e comercializar com marca própria; e, ao Governo, cabe a implementação de medidas que desonerem o setor, compensando os prejuízos causados pelo real valorizado: diminuição de impostos e dos encargos trabalhistas, criação de linhas de financiamento e ressarcimento do crédito do ICMS, atendendo a antigas reivindicações de empresas e entidades de classe.

A persistente crise da indústria calçadista gaúcha

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