A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS

Na nova série de Contas Regionais do IBGE e da FEE, o crescimento acumulado do PIB do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2014 foi maior apenas que o do Estado do Rio de Janeiro, ocupando a 26.ª posição entre os estados brasileiros. Em uma primeira observação, esse resultado pode indicar que o nosso estado passa por uma crise crônica que o faz ser incapaz de acompanhar o ritmo da economia nacional. Entretanto, uma análise mais acurada mostra que se olharmos a série a partir de 2006, configura-se outro resultado, com o RS apresentando um desempenho melhor (21.º) e mais próximo à média nacional, com um crescimento acumulado maior que o dos outros estados da Região Sul (Santa Catarina e Paraná) e de outras duas grandes economias estaduais (Minas Gerais e Rio de Janeiro). Entre os grandes Estados, o RS ficou atrás apenas de São Paulo. Compreender o que ocorreu no RS, tanto nos anos iniciais da série quanto na sua persistência no tempo é importante, principalmente devido aos seus efeitos sobre o PIB per capita, sobre a participação do Estado na economia nacional e sobre a arrecadação de impostos.

A primeira suspeita obviamente recai sobre a estiagem que se abateu sobre o Estado em 2004 e 2005, provocando severas perdas para a agropecuária. Entretanto, ela recuperou essas perdas em 2006 e exibiu um crescimento acumulado superior ao brasileiro de 2003 a 2014, mesmo com outra estiagem severa em 2012. Dessa forma, as perdas agrícolas decorrentes de problemas climáticos não podem explicar diretamente o desempenho gaúcho durante todo o período.

No gráfico, podemos ver que a indústria de transformação gaúcha teve desempenhos negativos em 2005 e 2006, enquanto o desempenho brasileiro, apesar de pequeno, foi positivo. Como o diferencial observado com o desempenho nacional não foi recuperado nos anos subsequentes, e, a partir de 2007, a indústria de transformação do RS e do Brasil tiveram desempenhos bastante similares, é na queda especificamente local da indústria de transformação desses anos que se encontra a maior diferença acumulada no PIB para o conjunto da série. Por que, nestes dois anos (2005 e 2006) especificamente, as atividades industriais se descolaram do desempenho do restante do País? Apesar de ser comum a ideia de que a valorização da taxa de câmbio está associada ao desempenho negativo da indústria gaúcha, ela não explica o porquê da retomada industrial a partir de 2007, mesmo com o câmbio valorizando-se até a crise de 2008 e em 2010 e 2011.

Se, além da seca e do câmbio, observarmos a redução da taxa de formação bruta de capital fixo nacional e o comportamento dos preços agropecuários, principalmente o da soja, nos anos de 2005 e 2006, poderemos acrescentar uma hipótese multicausal para o que aconteceu nesses anos e, assim, compreender melhor a dinâmica interna da nossa economia. A indústria de transformação é impactada diretamente de duas formas pela produção agropecuária: a montante, acarretando uma redução de demanda por insumos, e a jusante, provocando uma redução de oferta agrícola. A valorização da taxa de câmbio aumenta a concorrência externa aos produtos industriais, prejudicando tanto suas vendas internas quanto suas exportações. A redução do investimento nacional diminui a demanda por bens de capital e sua cadeia de fornecedores. A queda dos preços internacionais, combinada com a valorização do real, reduz a renda agrícola mediante a queda do valor da produção.

O efeito da estiagem é local, e sua duração por dois anos amplificou o impacto da demanda sobre o setor de insumos. Os efeitos do câmbio e do investimento nacional impactaram toda a indústria nacional, mas, ainda mais, a indústria gaúcha devido à especificidade de sua estrutura. O efeito da queda de preços da soja, apesar de atingir todo o País, atingiu mais o Estado porque esta veio combinada com a redução da quantidade, causada pela estiagem. Ao atingir um contingente significativo de ocupados no RS, a queda de renda reduziu a demanda por bens locais, e, mais fortemente, por bens de capital (máquinas e implementos agrícolas). A importância do efeito-renda é corroborada pelo desempenho inferior do comércio gaúcho comparado ao nacional até 2009. Outra forma de vermos a questão é compararmos o que acorreu depois da seca de 2012 com a rápida recuperação decorrente da elevada capitalização do setor agrícola e do nível alto de preços da soja em 2012.

Entre os resultados do menor nível no volume do PIB do RS no período, a partir da queda da indústria de transformação gaúcha, a diminuição da arrecadação de impostos é que tem um significado mais direto para a atual situação fiscal do Estado. Como mais de 45% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é arrecadado pela indústria de transformação, o fato de a taxa acumulada pela indústria estar 70% inferior à brasileira ao longo do período de 2003 a 2014 indica uma potencial perda de arrecadação que poderia minorar as dificuldades fiscais do Estado e dos municípios. O efeito estrutural das consequências dessa queda e o caráter exógeno das causas do problema revelam a dificuldade de os governos estaduais e municipais mitigarem sozinhos suas consequências. Problemas como esses deveriam receber um tratamento diferente da Federação, sendo um dos objetos de um redesenho do pacto federativo.

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Como citar:

ROCHA, Roberto. A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-persistencia-dos-efeitos-da-queda-da-industria-de-transformacao-no-rs/>. Acesso em: 11 de dezembro de 2017.

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