A operação Carne Fraca e as exportações gaúchas

Conforme amplamente noticiado nos veículos de imprensa nacionais e internacionais, no dia 17 de março, a Polícia Federal deflagrou a operação Carne Fraca, resultado de investigação sobre um esquema de corrupção na fiscalização das carnes produzidas no Brasil. A principal ilegalidade apontada foi a facilitação da produção de alimentos adulterados, o que, de acordo com a Polícia Federal, envolvia a emissão de certificados sanitários sem a fiscalização efetiva, em troca de vantagem econômica. A investigação apurou irregularidades em 21 frigoríficos, situados no Paraná (18), em Goiás (dois) e em Santa Catarina (um).

Segundo as estatísticas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), em 2016, o Brasil foi o maior exportador mundial das carnes bovina e de frango e o quarto maior exportador de carne suína. De acordo com os números da Secretaria de Comércio Exterior, no último ano, as carnes brasileiras foram embarcadas para 174 países e totalizaram US$ 14,2 bilhões em vendas. O excelente desempenho comercial do setor de carnes brasileiro historicamente tem sido atribuído ao status sanitário do rebanho nacional, à qualidade da carne ofertada e aos menores custos de produção. Com a operação Carne Fraca, ainda que temporariamente, deterioraram-se as condições de credibilidade e a reputação de que desfrutava essa indústria no mercado internacional. Conformou-se, assim, um ambiente de incertezas para uma cadeia produtiva que emprega mais de um milhão de pessoas com carteira assinada, segundo informações do Ministério do Trabalho e Emprego.

Na última quinta-feira (6 de abril), o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) divulgou os números das exportações do Brasil e das unidades da Federação referentes ao mês de março. Viabilizou-se, dessa forma, uma primeira avaliação das repercussões de curto prazo derivadas da operação da Polícia Federal sobre as exportações brasileiras e gaúchas de carnes. Ainda que nenhum frigorífico situado no Rio Grande do Sul tenha sido alvo da investigação, a imagem do produto brasileiro foi negativamente afetada, o que, indiretamente, pode afetar a condição competitiva das empresas do setor no Estado.

As estatísticas referentes a março apontam que o valor das exportações das três principais carnes comercializadas pelo Brasil (de frango, suína e bovina) subiu 7,8% comparativamente ao mesmo mês do ano passado. Até fevereiro, as vendas cresciam a taxa de 17,4%, o que sinaliza uma desaceleração. Em março, embora tenha ocorrido queda no volume embarcado, a elevação nos preços médios (US$/tonelada) determinou o crescimento do valor exportado. No Paraná, estado que concentra a maioria absoluta dos frigoríficos investigados, somente o valor das exportações de carne bovina foi inferior ao registrado em março de 2016 (-31,2%). Ajuda a explicar esse resultado o fato de apenas três dos 18 estabelecimentos investigados estarem habilitados para a exportação. Em Goiás, houve crescimento no valor exportado dos três tipos de carnes avaliadas (alta de 13,5% no total). Essa variação é surpreendente, pois os dois frigoríficos investigados comercializam para mais de uma dezena de países e, assim como os demais envolvidos, foram proibidos de exportar logo após a deflagração da operação. Presume-se que outras plantas industriais do Estado aumentaram suas exportações e/ou pode ter ocorrido uma expansão das vendas dos frigoríficos atingidos durante a primeira quinzena do mês.

No Rio Grande do Sul, o valor das exportações de carnes cresceu 8% em março, impulsionado pela elevação nos preços médios das carnes de frango e suína. Até fevereiro, o crescimento médio era de 29,9%. Em se tratando dos destinos das exportações, as maiores elevações absolutas em valor ocorreram nas vendas de carne suína para a Rússia (mais US$ 13,9 milhões; 100,9%) e de carne de frango para o Egito (mais US$ 5,5 milhões; 84,9%) e a China (mais US$ 4,4 milhões; 4,4%). Por outro lado, as maiores quedas absolutas em valor ocorrem nas vendas externas de carne de frango para a Venezuela (menos US$ 6,9 milhões; -100%) e a Arábia Saudita (menos US$ 6,4 milhões; -37,7%) e de carne suína para a China (menos US$ 6,2 milhões; -87,9%) e Hong Kong (menos US$ 2,1 milhões; -28,7%). Apenas as exportações de carne bovina recuaram em valor (-13,1%) e volume (-9,9%). Os principais destinos responsáveis por essa dinâmica foram Hong Kong (menos US$ 829,5 mil; -34,5%) e China (menos US$ 612,3 mil; -30,7%).

Apesar da desaceleração, o desempenho exportador no mês de março não deixa de ser surpreendente, principalmente se consideradas as expectativas alarmistas difundidas imediatamente após a deflagração da operação Carne Fraca. Mas é possível buscar no atual cenário internacional do setor alguns elementos que ajudam a compreender essa relativa resistência das vendas externas brasileiras, mesmo em um ambiente de aparente crise institucional. Atualmente um grande número de países está sendo negativamente impactado pela gripe aviária. A China, por exemplo, após muitos anos, reduziu sua produção interna de frangos, passando a suprir o consumo doméstico a partir de importações de países não afetados por essa enfermidade, dentre eles o Brasil. Em menor grau, também se pode dizer que as sanções impostas à Rússia, principalmente pelos Estados Unidos e pela União Europeia, como decorrência do conflito na Ucrânia, promoveram uma reorganização dos fluxos comercias internacionais de carne suína que favoreceu marginalmente o Brasil.

Contudo é preciso atentar para o fato de haver tradicionais compradores entre os destinos que registraram os maiores recuos nas exportações gaúchas de carnes no mês de março. A situação que parece merecer maior atenção é a da China em relação às carnes suína e bovina. Após grande esforço diplomático do Governo brasileiro, viabilizou-se o reestabelecimento do acesso ao mercado chinês para esses produtos nos últimos anos. Devido ao potencial de consumo desse mercado e ao crescimento recente nas vendas, um novo bloqueio do mercado chinês representaria um prejuízo importante para a indústria brasileira de carnes, com rebatimentos no Rio Grande do Sul. Nos próximos meses, será decisivo o trabalho do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) na construção de uma agenda de trabalho que permita o esclarecimento dos fatos apurados e a garantia de depuração setorial. Ainda é cedo para projetar os impactos econômicos de longo prazo derivados da operação Carne Fraca, mas torna-se evidente a necessidade de aperfeiçoar as governanças pública e privada dessa cadeia produtiva.

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