A “melhora” da balança comercial brasileira em 2015

A balança comercial brasileira, nos primeiros nove meses de 2015, apresentou uma aparente melhora. O saldo comercial no acumulado até setembro ficou positivo em US$ 10,2 bilhões, enquanto, no mesmo período do ano anterior, o resultado foi um déficit de US$ 741 milhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).

No entanto, esse resultado está longe de ser motivo de comemoração, haja vista sua simultaneidade com a redução da corrente de comércio em quase 20%. Isso porque as vendas externas se retraíram em 16,78%, mas as compras externas caíram ainda mais, 23,01%, o que explica o superávit alcançado.

Pode-se observar que a redução sincrônica no valor de exportações e importações vem ocorrendo desde a segunda metade do ano de 2014, conforme o gráfico abaixo. Esse movimento de declínio coincide com o início da fase de queda no preço das commodities, com a desvalorização do real em relação ao dólar e com um período de retração da economia brasileira. Por hipótese, esses fatores, em menor ou maior intensidade, podem explicar esse resultado.

Em uma tentativa de hierarquizar a importância desses diferentes fatores, convém analisar separadamente os diversos itens da pauta de exportações e importações e verificar sua contribuição (participação de cada produto na pauta multiplicada pela sua variação) para a queda de importações e exportações.

Conforme dados do MDIC, a contribuição de cada um dos diferentes grupos de produtos na variação negativa de 16,78% das exportações de janeiro a setembro de 2015, em relação ao ano anterior, descreve-se como: matérias-primas não comestíveis, exceto combustíveis (-6,84 p.p.); produtos alimentícios e animais vivos (-2,72 p.p.); combustíveis e lubrificantes, minerais e produtos conexos (-2,36 p.p.); máquinas e material de transporte (-1,73 p.p.); produtos químicos e produtos conexos (-0,77 p.p.); artigos manufaturados (-0,45 p.p.); artigos manufaturados diversos (-0,19 p.p.); e bebidas e fumo (-0,15 p.p.).

Esses dados evidenciam que: (a) a desvalorização cambial não foi suficiente para estimular exportações de manufaturados, até o momento; (b) os grupos de produtos com contribuição superior a 2 p.p. tiveram retração do valor de suas exportações devido, principalmente, à performance negativa dos preços de commodities (pois em volume não houve retração para esses grupos de produtos).

Por sua vez, o resultado negativo das importações teve as seguintes contribuições: máquinas e material de transporte (-7,53 p.p.); combustíveis e lubrificantes, minerais e produtos conexos (-6,40 p.p.); produtos químicos e produtos conexos (-2,99 p.p.); artigos manufaturados (-2,14 p.p.); artigos manufaturados diversos (-0,90 p.p.); produtos alimentícios e animais vivos (-0,86 p.p.); matérias-primas não comestíveis, exceto combustíveis (-0,33 p.p); óleos, gorduras e ceras de origem animal e vegetal (-0,07 p.p); e bebidas e fumo (-0,03 p.p.).

Diante disso, é possível verificar que a principal contribuição para a queda das importações veio do setor de máquinas e material de transporte. Nesse caso, teoricamente, tanto a desvalorização cambial quanto a recessão interna poderiam explicar esse resultado.

Todavia entre esses dois fatores — câmbio ou recessão —, o efeito da estagnação econômica parece ser mais relevante para a queda das importações no atual estágio recessivo da economia brasileira. Isso porque, nessa conjuntura, é difícil imaginar aumento do investimento e, consequentemente, das compras externas de máquinas e equipamentos, mesmo se o câmbio estivesse mais valorizado, a menos que estivesse ocorrendo uma reestruturação significativa do parque industrial. Um exemplo disso é a economia brasileira nos anos 90, na qual o efeito da taxa de câmbio parece ter sido mais decisivo na variação das importações.

Por sua vez, o setor de combustíveis e lubrificantes, minerais e produtos conexos também está em destaque em termos de variação negativa no valor das compras externas. Nesse caso, constata-se redução em volume (-8,07%), mas o efeito-preço (-40,81%) se sobressai, diante da conjuntura de forte queda no preço internacional do petróleo.

Em suma, duas considerações emergem a partir desse estudo. Em primeiro lugar, a retração das importações evidencia a inexistência de políticas econômicas para sustentar um crescimento econômico mais robusto.

Essa ausência, por sua vez, é consequência da falta de autonomia do País, tanto no plano interno — resultado da instabilidade política — quanto no plano externo, a qual se concretiza na submissão às exigências das agências de classificação de risco quanto à adoção de políticas de austeridade.

Em segundo lugar, reflete a dependência das exportações brasileiras em relação aos cíclicos e voláteis preços internacionais de commodities, além do baixo dinamismo dos produtos manufaturados brasileiros no comércio internacional.

Assim, diante disso, pode-se concluir que esse superávit comercial não pode ser considerado algo positivo para a economia brasileira. Na verdade, ele é o reflexo das suas próprias fragilidades.

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