A inflação brasileira

A Selic é a menor taxa de juros nacional. Em novembro, voltou aos dois dígitos, encerrando curto período de taxas “civilizadas”. O mercado respondeu prontamente, reduzindo as expectativas tanto de inflação quanto de crescimento. Passados quase 20 anos de Plano Real, a economia brasileira parece haver levado ao paroxismo o trade-off entre crescimento e inflação. Por que um país com tantos recursos naturais e humanos se mostra cronicamente incapaz de crescer sem acordar o “dragão”?

A resposta convencional é a de que, na origem do problema, se encontrariam gargalos de oferta. Faltariam ao País infraestrutura, capacidade produtiva, produtividade, tecnologia, etc. Esse diagnóstico nos parece equivocado. Desde logo, porque toda a economia capitalista vive em crônico desequilíbrio. A restrição de oferta em alguns setores é tão disseminada quanto o excesso de capacidade produtiva em outros tantos. E todo o crescimento envolve demandas que se deparam com restrições setoriais de oferta. A China vive essa situação há 40 anos. E sua inflação é similar à inflação dos EUA, a despeito de ter uma moeda desvalorizada (o que protege a indústria nacional da concorrência externa) e ter maiores carências de recursos naturais. Como eles conseguem? Não seria — insistem os economistas obcecados com os gargalos de oferta — porque eles inovam, e nós não? Sem dúvida, esse é um ponto importante. Mas é bom lembrar que todos os Tigres Asiáticos, sem exceção, foram condenados, no início de suas carreiras meteóricas, por “explorarem mão de obra barata e produzirem bugigangas em sistemas produtivos essencialmente tradicionais”. Na realidade, essa foi a grande inovação asiática: apostar no que sabem fazer, na qualificação do trabalho já realizado, na melhoria contínua.

Mas a capacidade inovativa do brasileiro não é menor. Mais: o nosso padrão inovativo é similar ao padrão asiático original — copiamos, fazemos “genéricos”, usamos a internet como ninguém, somos flexíveis em tudo —, mas nossa inflação é crônica. Por quê?

É preciso reconhecer que temos uma relação única e diferenciada com o “dragão”. Ele assola, cotidianamente, o nosso quintal, porque há uma peculiaridade do processo de formação de preços no Brasil. Vamos tentar dar uma breve contribuição ao tema analisando a performance entre o início do segundo mandato de FHC e o final do primeiro mandato de Lula. De janeiro de 1999, até os primeiros meses do Governo Lula, a economia foi assolada pela turbulência cambial. De meados de 2003 a 2006, o quadro se inverteu. Como evoluíram os preços das distintas atividades econômicas ao longo desses dois ciclos?

O primeiro fator a observarmos é a assimetria da influência do câmbio nominal e real, do desemprego e dos custos salariais sobre os preços: quando o real se desvaloriza e quando os salários nominais sobem, a taxa de inflação cresce; mas quando o real se valoriza e/ou os custos internos (reais e/ou nominais) caem, o nível geral de preços não responde da mesma forma e com a mesma intensidade. Ao longo de todo o segundo Governo FHC, a correlação do Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) com a variação da taxa de câmbio de três meses atrás era de 0,406 (sig 0,01). No primeiro Governo Lula, essa correlação caiu para 0,104 e não passou no teste de significância (sig 0,527). O mesmo movimento ocorre quando tomamos apenas o IPCA dos importáveis e exportáveis (tradables). No Governo FHC, a correlação do IPCA mensal dos tradables com a variação cambial três meses antes era de 0,428 (sig 0,07) e passou a ser de 0,239 (sig 0,143) no Governo Lula.

Essa assimetria é ainda maior na dinâmica de preços dos não tradables não regulados. Esse segmento é dominado pelos serviços pessoais, de livre entrada. De sorte que a evolução dos preços se associa, antes, à evolução dos salários nominais (que é função inversa da taxa de desemprego dos últimos meses), do que ao câmbio. Durante o Governo FHC, a correlação entre o IPCA dos não tradables e a taxa de desemprego defasada em cinco meses era de -0,417 (sig 0,08): um aumento no desemprego induzia à deflação dos serviços cinco meses depois. No Governo Lula, essa mesma correlação tornou-se não significativa e próxima de zero.

O acompanhamento da evolução do câmbio real é ainda mais esclarecedor. Se tomamos apenas os meses em que o real sofre desvalorização real (superior à diferença entre a inflação interna e externa), a correlação com o IPCA geral dois meses à frente é de -0,631 (sig 0,000): a inflação cresce quando o dólar sobe. Mas essa relação torna-se fraca, positiva e não significativa quando o real se valoriza em termos reais frente ao dólar (correl 0,131; sig 0,392). Como regra geral, todos os testes levam à conclusão de que os modelos de formação de preços com base em uma margem fixa sobre os custos diretos não funcionam muito bem no Brasil. A flexibilidade dos preços para cima é muito maior do que para baixo. Mais do que um problema de produtividade, parece haver um viés no sistema de precificação que induz a uma “inércia de mão única”. É preciso quebrar esse viés. E isso só nos parece possível se focarmos a política de combate à inflação nos segmentos produtivos de livre entrada, pois estes são os únicos que transferem os aumentos de produtividade e as desonerações fiscais para o consumidor.

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