A indústria automobilística no Brasil e a crise argentina

A indústria automobilística brasileira vem atravessando uma fase de queda em suas exportações para a Argentina. Os valores exportados recuaram 13,3% no primeiro trimestre de 2014 frente aos de igual período do ano anterior e 45,2% em comparação com os do último trimestre de 2013. Esse desempenho tem raiz, em boa medida, na crise econômica que a Argentina vem enfrentando. Isto porque esse país é o principal destino das exportações do setor automotivo brasileiro. Em 2013, a Argentina comprou US$ 8,7 bilhões entre veículos e autopeças do Brasil, representando 65,4% das vendas internacionais da indústria automobilística brasileira (MDIC). No Brasil, em 2013, as exportações em relação à produção do setor responderam por 16,4% das unidades de veículos e de 9,3% das vendas de autopeças (Anfavea e Sindipeças). Por sua vez, o Brasil foi o destino de 88,2% das exportações de veículos argentinos em 2013, as quais representaram 48,2% da produção total desse setor na nação vizinha (Adefa). Para compreender a dinâmica de interdependência produtiva e comercial entre Brasil e Argentina nessa indústria, faz-se necessário analisar o seu padrão tecnológico internacional.

A atual configuração da indústria automotiva mundial tem origem na crise dos anos 70 do século XX, devido à saturação dos principais mercados mundiais por veículos padronizados. A recomposição de suas vendas foi obtida através da mudança de paradigma tecnológico nos anos 80. Desde então, o setor vem evoluindo ao longo de uma trajetória em direção a uma crescente busca por flexibilidade na fabricação de veículos. Esta se manifesta na chamada produção enxuta, buscando adequar-se às variações nas quantidades demandadas. Ademais, há a intensificação no uso de maquinário de base microeletrônica, com o intuito de elevar o escopo dos modelos de veículos montados em cada fábrica. Essa é uma forma de ampliar o mercado, atendendo uma gama maior de perfis de consumidores.

Adicionalmente, para rejuvenescer com maior frequência os mercados em saturação, encurta-se o ciclo de vida tecnológico dos veículos, através da aceleração do ritmo de introdução de inovações. Esse processo é viabilizado pelo estabelecimento de acordos de desenvolvimento tecnológico entre as montadoras e os fornecedores dos principais sistemas (freios, suspensão, etc.), redução do número de plataformas, mas com ampliação da quantidade de modelos e suas variações que são montados em cada uma delas, e fabricação modular dos veículos. Assim, os principais fornecedores seguem as decisões de investimento das montadoras, fabricando os sistemas desenvolvidos em conjunto onde houver a produção das plataformas e dos modelos de veículos que as utilizem. Isto é feito através do estabelecimento de condomínios industriais nos principais mercados regionais, produzindo essencialmente os mesmos veículos em âmbito mundial, mas com flexibilidade para adaptações à demanda local e a eventuais avanços tecnológicos pelas subsidiárias. Assim, as montadoras obtêm economias de escala nas plataformas e de escopo nos modelos de veículos que as utilizem.

Na América do Sul, o Brasil desponta como base para atender a região, respondendo por 80,3% dos veículos produzidos em 2013, sendo que a Argentina contribui com outros 17% (OICA). Devido à maior renda per capita da Argentina, ela responde por grande parte da produção de automóveis de luxo. Em razão de seu maior mercado, mas de menor renda per capita, o Brasil produz automóveis compactos e médios, parte dos de luxo, além da maior parcela de caminhões, ônibus e autopeças. Logo, há divisão do trabalho e complementaridade entre as subsidiárias desses dois países, gerando interdependência. Desse modo, a balança comercial do setor é favorável à Argentina em veículos, devido ao seu maior valor unitário, mas pende a favor do Brasil quando somadas as autopeças. O ponto é que, pela sua menor escala de produção, é antieconômica a fabricação de certos componentes na Argentina, o que a torna dependente de importações de autopeças do Brasil.

Logo, os efeitos da crise argentina repercutem fortemente na indústria automobilística brasileira. A desvalorização do peso, juntamente com as medidas de restrição às importações e de elevação da taxa de juros, para conter a saída de divisas e para combater a inflação, vêm reduzindo a demanda da Argentina junto ao setor automotivo brasileiro. A restrição às importações, inclusive, vem impedindo a discussão quanto à renovação do regime automotivo do Mercosul, que vence na metade de 2014. Em função da forma como a produção mundial do setor automotivo está organizada, as subsidiárias brasileiras dispõem de pouco espaço para reorientar as suas vendas para outros continentes, além do fato de que o tamanho do mercado dos países vizinhos também restringe esse tipo de ação. Nesse sentido, a crise argentina contribui para inibir o crescimento do setor automobilístico brasileiro em 2014 e, em razão de seu peso na estrutura produtiva e grande encadeamento com outros setores, também o da indústria nacional. Como possível paliativo para tentar recuperar o comércio do setor automotivo com a Argentina, o Brasil está propondo a oferta de crédito à importação. Tal medida não se opõe, a curto e médio prazo, aos esforços do país vizinho em conter a crise cambial, pois contribui para mitigar a saída de divisas com o pagamento a fornecedores brasileiros.

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