A expansão do crédito às famílias e a estrutura financeira no Brasil

A expansão do crédito a partir de 2004 foi um dos principais canais que permitiram o crescimento do consumo das famílias, o que, por sua vez, ajudou a fomentar o investimento nos anos seguintes. O processo foi acompanhado por contínua ampliação da massa salarial, mas não evitou o maior endividamento das famílias, que, após partir de um nível baixo internacionalmente, ainda se mantém moderado como proporção do Produto Interno Bruto (PIB). Tal nível de endividamento, por sua vez, resulta em um fluxo de pagamentos em juros e amortização, comprometendo uma parcela da renda familiar.

O gráfico mostra dois indicadores relativos a uma série de países selecionados: endividamento, medido pelo total da dívida das famílias em relação ao PIB; e comprometimento da renda, percentual da renda corrente das famílias destinado ao pagamento do serviço da dívida (juros e amortização). Nota-se que, no Brasil, o endividamento é menor do que nos países desenvolvidos, bem como na média dos demais. Contudo o comprometimento da renda é superior, principalmente quando relativizado pelo tamanho da dívida, o que incita a se questionarem as causas e consequências de tal perfil.

No País, o endividamento encontra-se em 21% do PIB. Se medido em relação à renda das famílias acumulada em 12 meses, esse número chegou a 46% em outubro de 2014. Já o serviço da dívida consome 22% da renda mensal das famílias. O endividamento é modesto, quando comparado ao que prevalece em outros países. Contudo, ao se analisarem outros atributos, percebe-se que há uma diferença qualitativa no endividamento, representada por duas características do endividamento familiar brasileiro: (a) a parcela do serviço da dívida comprometida com o pagamento de juros, desconsiderando-se a amortização, é excessivamente maior; e (b) o prazo médio da dívida demasiadamente curto eleva o comprometimento da renda corrente.

A concentração do endividamento em linhas de curto prazo, como cheque especial e cartão de crédito, eleva o peso dos juros no serviço da dívida. Além disso, a predominante utilização de taxas de juros pós-fixadas nessas linhas aumenta o impacto de variações na taxa básica e no spread bancário sobre o comprometimento da renda.

Nesse sentido, um eventual novo ciclo de expansão do consumo, baseado no crédito, assim como a sua sustentabilidade, passaria, necessariamente, pela revisão dos termos nos quais esse endividamento ocorre.

A experiência recente do Banco Central do Brasil (BCB) e dos bancos públicos demonstra que não será fácil mudar esses padrões. Dois momentos revelam a rigidez da estrutura sobre a qual se assenta o Sistema Financeiro Nacional: (a) a tentativa do BCB de reduzir a taxa básica de juros foi abandonada e revertida assim que a inflação se aproximou do topo da meta; e (b) a tentativa de reduzir o spread bancário utilizando os bancos públicos encontrou forte resistência nos bancos privados, que acabaram por assumir uma perda no market share, em vez de reduzir suas margens.

A alteração dessa estrutura resulta difícil, devido ao seu enraizamento no comportamento tanto das instituições financeiras quanto das famílias. Se a tentativa não surtiu efeitos duradouros, pode-se indicar que não é no futuro próximo que ocorrerá alguma mudança. É difícil projetar-se qualquer alteração, tendo em vista a perspectiva de manutenção da taxa básica em níveis altos e a já anunciada gradual diminuição dos empréstimos oriundos nos bancos públicos. Ao que tudo indica, as instituições financeiras continuarão buscando a rentabilidade com baixa exposição ao risco de crédito. De outro lado, a expansão do crédito deve seguir o passo lento da expansão da renda. A exceção constitui-se no crédito imobiliário, cujo comportamento tem-se mostrado diferente dos demais, devido tanto às políticas específicas para habitação quanto às características particulares de prazos longos e de juros baixos, o que dilui o serviço da dívida e torna menor o impacto sobre o comprometimento da renda.

Em suma, a expansão do crédito ocorrida a partir de 2004 foi um fenômeno único, que possibilitou o ingresso de diversas famílias no sistema financeiro. A partir desse momento, qualquer expansão tende a ser lenta e gradual, a fim de manter a sustentabilidade tanto das famílias quanto das instituições financeiras. Além disso, para que a expansão do crédito se reverta em maior atividade econômica, e não apenas na transferência de renda das famílias para as instituições financeiras, na forma de juros e encargos, uma mudança sustentada nas condições e na qualidade dos empréstimos tomados torna-se cada vez mais necessária.

drope2

Compartilhe