A evolução da economia brasileira recente revelada pela comparação de suas duas últimas Matrizes de Insumo-Produto

Em outubro de 2016, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a nova Matriz de Insumo-Produto (MIP) nacional. A MIP é um painel sistemático e integrado da economia. As colunas representam os setores demandantes, e as linhas, os setores ofertantes. Os setores-linha são ordenados do Setor Primário ao Terciário. O valor total do produto de cada setor corresponde à soma do valor alocado em cada coluna-cadeia mais o consumo e investimento final das famílias. O valor total do produto de cada coluna-cadeia é o valor dos insumos adquiridos dos diversos setores mais os rendimentos dos trabalhadores e empregados (que se transformarão no consumo e investimento das famílias). O somatório dos valores de colunas e linhas é o mesmo, por definição, mas como as fontes de informação são díspares e distintas, no início do processo de cálculo, os valores podem apresentar divergências. A produção da MIP envolve a análise crítica dos dados estatísticos obtidos em separado e de forma individual. Não é raro que a produção da MIP traga à luz inconsistências em informações estatísticas parciais, que portavam algum viés (em função do padrão de coleta ou sistematização), mas que se mantinham inaparentes até que o exercício de totalização e sistematização as revelassem.

Um instrumento tão rico tem um custo: produzir uma MIP é trabalho de anos. A MIP lançada em 2016 toma por referência o ano de 2010. A MIP anterior (com menos setores) foi lançada em 2008 e tem por referência o ano de 2005. Além disso, ao longo desses cinco anos, passamos por um processo inflacionário interno, os preços relativos alteraram-se, o salário real elevou-se, houve uma crise internacional que impôs uma forte flutuação cambial, mas, ao fim e ao cabo, a moeda nacional sofreu forte apreciação real. Ao longo dos cinco anos, a relação real/dólar em Paridade do Poder de Compra (com referência a 1.° de julho de 1994) passou de R$ 1,0276 = US$ 1,00 em 31 de dezembro de 2005 para uma relação de R$ 0,6727 = US$ 1,00 em 31 de dezembro de 2010. A evolução do câmbio real e a comparação dos valores monetários das duas MIPs toma o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) como indicador de inflação e deflator. A despeito do deflator implícito do Produto Interno Bruto (PIB) ser mais amplo e estar diretamente vinculado à MIP, o IPCA apresenta uma dinâmica muito próxima e é mais adequado para avaliar a evolução do salário real.

Nosso objetivo analítico foi avaliar a relação entre a valorização real da moeda brasileira e a ampliação da abertura da economia para importações. Nossa hipótese era de que, com a crescente exposição competitiva cambial, aumentaria o componente importado, em especial dos insumos intensivos em mão de obra. Como resultado, uma variação de demanda autônoma de R$ 1 bilhão, seja em exportações (X), seja em investimentos — formação bruta de capital fixo (FBKF) —, geraria menos emprego em 2010 do que gerava em 2005. Os resultados estão expostos na tabela.

Desde logo, chama atenção a evolução contrastante das exportações (X) e da FBKF em valores absolutos entre 2005 e 2010 (R$ bilhões). Enquanto as exportações totais cresceram 3,37%, a FBKF cresceu 97,28%. Mais do que a crise de 2008 (que também deveria deprimir os investimentos), a performance inferior das exportações parece dizer respeito à evolução do câmbio. É isso que as demais colunas da tabela nos revelam.

Ao testarmos a resposta da economia a uma variação de demanda externa (X) ou interna (FBKF), notamos uma queda expressiva na geração de produto interno em relação a 2005. Nesse ano, a cada R$ 1 bilhão de acréscimo de demanda sobre as exportações ou a FBKF, aproximadamente três quartos eram canalizados para o mercado interno e um quarto se evadia como importação. Em 2010, a absorção caiu em torno de 20%, ficando pouco acima dos 60%. Os setores exportadores tradicionais (exportações exceto indústria extrativa mineral) foram os que apresentaram o maior índice de desnacionalização de insumos: as importações corresponderam a 21,6% do Valor Adicionado Bruto (VAB) e subiram para 38,6%.

Como não poderia deixar de ser, os vazamentos de demanda terão impacto similar sobre o emprego, mas, ao contrário do que outras estatísticas vêm indicando e tal como prevê a teoria econômica, a queda relativa do emprego mostra-se maior do que a queda relativa do VAB. Afinal, numa situação de pressão competitivo-cambial e de elevação dos salários reais (vide a última coluna da tabela), a queda de rentabilidade dos setores tradables intensivos em mão de obra é inexorável, convergindo para os segmentos de maior produtividade. Nesse caso, a elevação da taxa de salário real não se converte em elevação da participação da massa salarial na renda e do multiplicador da economia. De fato, a MIP 2010 aponta para uma significativa elevação da produtividade do trabalho nos setores tradables. Dada a manutenção da política cambial e do afrouxamento recente da política industrial de defesa do componente nacional, é muito provável que esse processo tenha se aprofundado ainda mais de 2010 até a atualidade. Se isso de fato ocorreu, é hora de reavaliarmos os determinantes da (nova) década perdida. Por enquanto, o que é certo é que as críticas dos novo-desenvolvimentistas ao real forte ganham um expressivo aliado com a MIP 2010.

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Como citar:

PAIVA, Carlos Aguedo Nagel. A evolução da economia brasileira recente revelada pela comparação de suas duas últimas Matrizes de Insumo-Produto Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-evolucao-da-economia-brasileira-recente-revelada-pela-comparacao-de-suas-duas-ultimas-matrizes-de-insumo-produto/>. Acesso em: 23 de agosto de 2017.

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