A encruzilhada da participação do salário na renda

A economia brasileira apresentou modificações na sua estrutura distributiva a partir do final dos anos 90. Entre 1997 e 2012, observou-se a redução do índice de Gini (quanto menor o valor do índice, mais equânime é a distribuição pessoal da renda). Por outro lado, a distribuição funcional da renda (distribuição da renda entre o trabalho e o capital), mensurada pelo percentual de participação dos salários na renda, apresentou uma trajetória distinta ao longo do período. Entre 1997 e 2003, a participação dos salários na renda ficou estável, em uma média de 47%. A partir de 2004, observou-se o crescimento desse percentual, o qual só foi interrompido em 2010, recuperando-se, posteriormente, até sofrer redução em 2013.
A participação do trabalho na renda é dependente dos níveis de emprego e de salário, ou, sob outra ótica, da relação entre o salário real e a produtividade do trabalho. Os dados sugerem que o crescimento da participação do salário na renda foi o propulsor do surgimento da denominada “nova classe média”. Isso fica explícito ao se considerar que, ao longo da última década, o salário real cresceu de maneira acentuada, em um contexto de crescimento moderado, porém constante, do nível de emprego. Esse cenário possibilitou a inclusão de um enorme contingente de novos consumidores na economia brasileira. Ao mesmo tempo, observaram-se novas dinâmicas empresariais que objetivavam criar produtos e serviços para esses novos consumidores. Os principais fatores que colaboraram para esse processo inclusivo foram: (a) a política de valorização do salário mínimo; (b) a expansão do crédito ao consumo; (c) as políticas governamentais expansionistas. Note-se que esse processo, ao engendrar o crescimento da demanda, teve a tendência a retroalimentar o crescimento da participação do salário na renda.
O gráfico apresenta a trajetória da participação do salário e de seus componentes para o período 2003-13. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu mais que o emprego, o que corresponde ao crescimento da produtividade do trabalho observado. O salário real, por sua vez, aumentou mais que a produtividade. Esse comportamento conjunto gerou o crescimento da participação do salário na renda. Cabe assinalar que a produtividade do trabalho permaneceu estável até 2006. Em 2007, iniciou-se uma trajetória de crescimento moderado, somente interrompida em 2009. A partir de 2010, a produtividade retorna ao padrão de crescimento anterior.
O aumento da participação do salário observado sofreu duas interrupções: (a) em 2010, devido à elevada taxa de crescimento do PIB, ou seja, em um contexto de crescimento tanto dos salários quanto do nível de emprego; e (b) em 2013, em decorrência da redução da taxa de crescimento dos salários e do emprego.
Os últimos três anos caracterizam-se pela resiliência dos salários e do nível de emprego em relação ao crescimento econômico reduzido da economia brasileira. As novas diretrizes macroeconômicas sinalizam contração dos gastos públicos e aumento de juros, com o correspondente aumento do custo do crédito. O salário mínimo, mesmo com a manutenção das atuais regras de correção, tende a crescer pouco. Dessa forma, existe a tendência de estagnação ou de queda tanto do nível de emprego quanto do salário real. Isso sinaliza uma redução da participação do salário na renda. Caso essa tendência seja confirmada e ocorra reversão na trajetória recente da distribuição funcional da renda, os próximos anos podem mostrar-se mais difíceis tanto para os trabalhadores brasileiros quanto para os empresários que vendem bens e emprestam recursos a esses trabalhadores.
O desafio que se apresenta à economia brasileira é o de que as recentes modificações na condução da política macroeconômica não comprometam as conquistas da chamada “década inclusiva”. O sucesso ou o fracasso de enfrentar tal desafio irá constituir-se no critério pelo qual os formuladores de política econômica serão avaliados.

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