A emergência do Estado Islâmico: causas e inquietações

A ascensão do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (doravante Daesh, acrônimo árabe) suscitou perplexidade da comunidade internacional, seja em virtude das atrocidades cometidas pela organização, seja pelo êxito militar do grupo, que passou a controlar um território maior do que o Reino Unido e uma população superior à da Dinamarca. Esse assombro é corroborado quando se tem em mente que o Daesh tornou nulas as fronteiras estabelecidas pelas potências europeias no Acordo de Sykes-Picot firmado em 1916.

A despeito da relevância do tema, pairam dúvidas sobre a origem do grupo, bem como as causas que possibilitaram seu surgimento. De maneira geral, focam-se os aspectos religiosos da questão, asseverando um suposto atraso intrínseco do Islã, cujos fiéis seriam naturalmente adeptos de uma concepção fundamentalista de seu livro sagrado, o que sustentaria a unidade política entre o Estado e a sua religião.

Há, de fato, uma corrente islâmica, o salafismo, que defende uma interpretação rigorosa do Corão e alega que os desvios dessa conduta são a raiz de todo mal na Terra. Essa perspectiva, porém, é minoritária entre os muçulmanos, mas constitui a ideologia de Estado na Arábia Saudita, aliada visceral dos Estados Unidos. Ademais, os salafistas veem os muçulmanos xiitas como seus principais inimigos, pois estes têm compreensões não ortodoxas do Islã.

Essa digressão é crucial porque, nos anos 80, a aliança entre norte-americanos e sauditas assegurou um fluxo intenso de guerrilheiros e de dólares para combater a União Soviética no Afeganistão. Esses combatentes ajudaram a fundar a al-Qaeda e o Taliban, estabelecendo um governo fundamentalista no país em 1996. Desde então, a Arábia Saudita tem sido o maior financiador de propaganda salafista e de grupos terroristas que agem em seu nome.

As invasões norte-americanas do Afeganistão e do Iraque em 2001 e 2003, respectivamente, também facilitam a compreensão desse processo. Embora tenham derrubado o Taliban do poder, os Estados Unidos jamais puseram um termo à presença de guerrilheiros salafistas no Afeganistão e ainda abriram uma nova frente de batalha para eles no Iraque, após a queda de Saddam Hussein.

Se Hussein foi deposto com a justificativa de trazer democracia ao povo iraquiano, o que se constatou na verdade foi a instauração de uma turbulência generalizada, com a eleição de um governo vacilante e inepto. Isso porque os Estados Unidos desejavam que os xiitas (maioria no país) controlassem a administração, já que haviam sido alijados politicamente durante os anos do sunita Hussein.

Ocorre que o governo iraquiano, sobretudo após a eleição de Nouri al-Maliki, em 2006, adotou uma estratégia de revanchismo em relação à minoria sunita, incitando o sectarismo no país e a perseguição aos grupos que antes contavam com o favorecimento de Saddam Hussein. Essa situação viabilizou o florescimento das organizações salafistas no Iraque, tendo em vista seu desprezo por xiitas.

O fundamentalismo islâmico se fortaleceu com o crescimento do sectarismo de al-Maliki, pois muitos sunitas, que, até então, eram seculares ou religiosos moderados, viram-se açodados pelo governo xiita e carentes de alternativas. Esse fenômeno não passou despercebido pelos movimentos salafistas, que estavam dispostos a apadrinhar quem aceitasse seus preceitos e quisesse lutar contra os xiitas.

Dentre os sunitas que aceitaram juntar-se às galerias dos salafistas, sobressaem aqueles que estavam ligados à administração civil e ao aparato militar do Governo Hussein, os quais foram destituídos logo após a ocupação dos Estados Unidos. Esse fator é relevante porque dotou os movimentos como o Daesh de capacidade administrativa e bélica, condição sine qua non para a posterior conquista e manutenção de territórios.

Não obstante isso, até 2011, a atuação desses grupos era esporádica e organizada em torno da realização de atentados terroristas, sem que lograssem ganhos políticos tangíveis. No entanto, a eclosão da Primavera Árabe na Síria e dos confrontos entre o governo de Bashar al-Assad e seus opositores beneficiou o Daesh, pois o regime sírio perdeu o controle de vastas regiões, incluindo a zona de fronteira entre a Síria e o Iraque, assegurando o livre trânsito de guerrilheiros salafistas entre os dois países.

À fortuna que representou a criação de condições favoráveis à sua expansão, o Daesh soube agregar a virtù política, na medida em que a organização, diferentemente de grupos como a al-Qaeda, teve êxito em assenhorear-se de uma ampla extensão territorial e mostrou-se capaz de gerir o que ocupou. Essa distinção deve-se sobretudo à estratégia do Daesh, que enfatiza as questões regionais e os inimigos próximos ao programar suas investidas. Enquanto a al-Qaeda visa à instauração de um califado global, atingindo preferencialmente alvos ocidentais, o Daesh procura firmar-se como um Estado, privilegiando o embate com os muçulmanos xiitas e os governos do Iraque e da Síria.

Outra distinção entre o Daesh e outros movimentos fundamentalistas diz respeito à utilização que esse grupo faz das tecnologias e das redes sociais. Embora o Taliban proibisse a disseminação de tecnologias ocidentais quando estava à frente do poder no Afeganistão, o Daesh não só as permite como faz uso constante delas, de modo a propagar seu proselitismo e sua conduta violenta. Naturalmente, essa atitude tem a intenção de causar apreensão na população ocidental, mas também objetiva demonstrar força perante muçulmanos frustrados por anos de governos autoritários e ineficientes e pelos constantes bombardeios de norte-americanos e europeus. Até agora, essa tática tem-se comprovado eficiente, já que o Daesh desponta como o único grupo que consegue antagonizar as milícias xiitas, os governos sírio e iraquiano e os ocidentais em geral.

As razões que explicam o advento do Daesh são complexas e obscuras. Ainda assim, pode-se afirmar que a promoção da ideologia salafista a partir dos anos 80, as invasões do Afeganistão e do Iraque, o sectarismo do governo iraquiano e a guerra civil na Síria contribuíram decisivamente para esse processo. Essa análise, então, reforça a gravidade da situação, que não pode ser resumida a questões de caráter religioso, por mais que o Islã, em sua vertente salafista, tenha sido objeto de instrumentalização política. Nessas circunstâncias, a hipótese de uma derrota do Daesh e do estabelecimento de um governo secular e democrático nessa região parece improvável, dados os inúmeros motivos que viabilizaram o sucesso que o grupo obteve até agora.

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