A elevação do preço do milho e seus impactos

A alta no preço do milho e suas repercussões econômicas foram objeto de intensos debates no Brasil, nos últimos meses. No Estado de Mato Grosso, maior produtor nacional, a saca de 60 quilos do cereal chegou a ser negociada ao preço médio de R$ 36,98 na terceira semana de maio de 2016, configurando uma alta nominal de 148% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA).

Alguns fatores explicam essa alta de preços. Um deles é a desvalorização cambial, que favoreceu as exportações brasileiras de milho, sobretudo no final de 2015. O gráfico apresenta os volumes mensais exportados e os preços médios praticados no mercado disponível de Sorriso-MT. Nota-se que o volume exportado cresceu 75%, passando de 20,5 para 35,9 milhões de toneladas, no comparativo de junho de 2015 a maio de 2016 contra o último período equivalente.

O crescimento das exportações ocorreu simultaneamente à confirmação de uma primeira safra nacional de milho inferior à do ciclo anterior (-11,7% segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)), resultado de reduções na área plantada (-10,2%) e no rendimento médio por hectare (-3,8%). Com a continuidade da cedência de área do milho à soja, a produção nacional do cereal tornou-se mais dependente da segunda safra (“safrinha”). A pressão altista nos preços do milho foi reforçada pela falta de chuvas em abril e maio. A baixa disponibilidade de milho no mercado doméstico, no período da entressafra, e a elevação das estimativas de perdas na “safrinha” criaram um ambiente de incertezas, que se refletiu nas cotações. A partir do início de junho, com a proximidade da colheita da segunda safra, os preços recuaram, mas se mantêm em patamares historicamente elevados (R$ 28,90 por saca na terceira semana de junho, segundo o IMEA).

Nesse contexto, é comum o questionamento sobre quem ganha e quem perde com a alta nos preços do milho no Brasil. Por um lado, o preço elevado do milho beneficia os produtores, ainda que não todos, haja vista que uma parcela expressiva da produção de grãos é comercializada antecipadamente. De outra parte, o cereal serve de insumo para diversas cadeias agroindustriais, principalmente as de carnes de aves e de suínos, que têm sua competitividade impactada negativamente. A capacidade da indústria de carnes de repassar para o consumidor final brasileiro os aumentos dos custos nos insumos é limitada, especialmente na atual conjuntura econômica nacional. No setor externo, a desvalorização cambial contribuiu para o crescimento dos volumes embarcados de carnes, mas a alta nos preços recebidos em reais parece ter sido inferior ao aumento dos custos de produção. Isso sinaliza que as margens de comercialização continuam desfavoráveis, seja no mercado doméstico, seja no exterior. Esse ambiente está afetando o ritmo de atividade da indústria de carnes brasileira.

Geograficamente, as agroindústrias de abate de aves e suínos, assim como os agricultores a elas integrados, estão relativamente mais concentradas no Sul do Brasil. Por essa razão, a elevação dos preços do milho tende a impactar mais severamente o Estado do Paraná, o de Santa Catarina e o do Rio Grande do Sul. No acumulado do ano (de janeiro a maio), o saldo de empregos com carteira assinada nesses três estados foi positivo, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (mais 1.392 postos), mas esse número é 81% menor que o registrado em igual período de 2015 (mais 7.453 postos).

No RS, há uma histórica dependência do milho produzido fora do seu território. Segundo as informações da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Irrigação, no primeiro trimestre houve crescimento no número de suínos e aves guiados para abate (17,4% e 11,0% respectivamente). Porém há sinais de desaceleração em abril e maio, o que está contribuindo para a perda de postos formais de trabalho. Em maio, a diferença entre admitidos e desligados na atividade de abate de suínos, aves e outros pequenos animais foi de -186 postos.

Com a entrada da produção da segunda safra de milho no mercado, a pressão de elevação nos preços domésticos deve continuar diminuindo. Contudo dificilmente haverá retrocesso aos patamares do ano anterior. O principal desafio para a indústria de carnes gaúcha continuará sendo o de preservar a competitividade em um cenário de margens extraordinariamente espremidas. É importante que a experiência deste ano também sirva de aprendizado ao setor, aumentando sua disposição à adoção de instrumentos de mercado e de alianças estratégicas capazes de reduzir os riscos associados às elevações temporárias nos preços do milho.

Quantidade exportada e preços médios do milho do Brasil — jan./14-maio/16

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