A educação gaúcha conforme o novo Idese

Dez anos após a sua criação em 2003, teve início o processo de alteração metodológica do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese), divulgado pela FEE. Reformulações metodológicas são esperadas em indicadores sintéticos de desenvolvimento, uma vez que, com o passar do tempo, surgem novas bases de dados, bem como novos desafios para as políticas públicas.

Em sua nova versão, o Idese apresenta três blocos (tal como em vários outros índices multidimensionais): Educação, Renda e Saúde. A principal mudança do novo Idese é a maior inclusão de indicadores qualitativos. Com isso, foram favorecidos municípios de pequeno e médio portes com bons serviços nessas áreas. Na classificação geral dos municípios, Carlos Barbosa (0,848), Aratiba (0,835) e Nova Araçá (0,834) foram os três primeiros colocados no Idese. Dentre os municípios com mais de 100.000 habitantes, o primeiro colocado foi Bento Gonçalves (0,816), seguido por Porto Alegre (0,807) e Santa Cruz do Sul (0,792).

Observando-se apenas o Bloco Educação, é possível fazer uma avaliação da situação educacional no Estado. Esse bloco está dividido em quatro sub-blocos: (a) pessoas de quatro a cinco anos de idade; (b) pessoas de seis a 14 anos de idade; (c) pessoas de 15 a 17 anos de idade; e (d) pessoas de 18 anos ou mais. No sub-bloco (a), avalia-se a taxa de matrícula na pré-escola nos municípios gaúchos, o que não era contemplado pela antiga versão do Idese. Essa inclusão é importante, uma vez que a matrícula nesse nível de ensino, crucial para desenvolver habilidades cognitivas e não cognitivas das crianças, não foi universalizada. No sub-bloco (b), utilizam-se as notas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB)/Prova Brasil (5º e 9º anos do ensino fundamental), para avaliar a proficiência dos estudantes. Nesse nível de ensino, o foco é a qualidade, já que as matrículas estão praticamente universalizadas. O sub-bloco (c) refere-se à taxa de matrícula no ensino médio, ainda não universalizada. Por fim, o sub-bloco (d) mede a proporção de adultos com ensino fundamental completo: uma medida de estoque de educação formal que substitui a taxa de alfabetização, que já atingiu patamares elevados no Estado. Com essa nova configuração, o Bloco Educação é mais abrangente, ao incluir a educação infantil e medidas de proficiência.

Sob essa nova perspectiva, o índice para o Bloco Educação no Estado como um todo foi 0,654 em 2010. Considerando-se nível alto de desenvolvimento a partir de 0,800, vê-se que a educação gaúcha ainda está longe do patamar desejado. Analisando o índice por sub-blocos, a escolaridade adulta é a que apresenta menor índice (0,563). A razão disso é que apenas pouco mais da metade da população adulta no Estado tinha ensino fundamental completo em 2010, o que é decorrência do passado histórico da educação no País e no Estado. Felizmente, a tendência é de melhoria desse indicador, com a inclusão de gerações mais jovens. O sub-bloco pré-escola, por sua vez, apresentou índice 0,610, mostrando que ainda havia um contingente grande de crianças que não frequentava a pré-escola em 2010. No ensino fundamental, cujo índice foi 0,669, o desafio é aumentar a qualidade, tendo como meta atingir índices comparáveis ao nível educacional da OCDE. Finalmente, no ensino médio, as matrículas precisam ser elevadas, dado que a taxa de matrícula bruta não passava de 77,4% em 2010 (índice 0,774).

A fim de avaliar diferentes partes do Estado, é conveniente analisar o Bloco Educação desagregando o RS em suas microrregiões. O melhor resultado no Idese Educação foi registrado na microrregião de Não-Me-Toque (0,749). Essa microrregião é formada por sete municípios, com destaque para Lagoa dos Três Cantos (0,812), Não-Me-Toque (0,793) e Selbach (0,769). Em seguida na classificação, as microrregiões de Ijuí (0,730) e Lajeado-Estrela (0,728) ocuparam a segunda e a terceira colocação respectivamente. Os indicadores educacionais mais baixos foram encontrados nas microrregiões de Soledade (0,583), Jaguarão (0,569) e Camaquã (0,563). A microrregião Soledade, em particular, destacou-se negativamente, uma vez que é cercada por microrregiões com bons resultados.

No ranking municipal, Ivoti apresentou o melhor resultado no Bloco Educação do RS, com índice 0,829. O município obteve altas taxas de matrícula bruta na pré-escola e no ensino médio, além de bons resultados na Prova Brasil. Ivoti mostra que, mesmo sem ter um dos maiores PIB per capita do Estado, é possível obter excelentes resultados educacionais. Ainda na classificação por municípios, Lagoa dos Três Cantos (0,812) e Picada Café (0,801) ocupam a segunda e a terceira posição. Dentre os municípios com mais de 100.000 habitantes, os três primeiros colocados no Bloco Educação foram os mesmos do Idese geral: Bento Gonçalves (0,753) em primeiro, seguido por Porto Alegre (0,726) e Santa Cruz do Sul (0,710). Por outro lado, Gravataí (0,599), Viamão (0,558) e Alvorada (0,468), localizados próximos a Porto Alegre, apresentaram os piores resultados na faixa dos municípios com mais de 100.000 habitantes. O mapa mostra o desempenho dos municípios no Bloco Educação. Nota-se que a Metade Norte do RS, em geral formada por zonas coloniais historicamente baseadas em pequenas propriedades, teve desempenho educacional superior.

A educação gaúcha conforme o novo Idese

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