A crise mundial e a economia brasileira

A crise mundial tem diversas características. Primeiro, é uma crise que teve como epicentro a economia norte-americana. Segundo, partindo de problemas no subprime, tornou-se uma crise de todo o sistema financeiro. Terceiro, o subprime estava em muitos outros países do mundo, logo, a metástase esperta passou para todo o planeta. Quarto, os dois centros de acumulação (setores imobiliário e automobilístico), no setor produtivo, sofreram danos fortes, que se desdobraram pelos elos da cadeia produtiva, afetando brutalmente a indústria. Quinto, os efeitos da queda da atividade das finanças e da produção, inevitavelmente, trouxeram um rastro fulminante no desemprego. A taxa norte-americana, que era de 4% em tempos normais, disparou para 7,6% em janeiro de 2009. Sexto, dado que a economia norte-americana estava muito ligada, pelos déficits gêmeos, a outras economias emergentes, houve um efeito desacelerador em todas elas, desde a China até o Brasil.

Se formos pensar com rigor, temos que aceitar que o que foi posto em causa, o que desabou, se chama modelo financeiro de acumulação, que se organizou produtivamente a partir de uma forte importação norte-americana. O círculo virtuoso virou a quadratura do círculo. E o mundo fascinante das finanças sucumbiu e levou junto a produção. Não há como não fazermos perguntas. Como solucionar o sistema financeiro? Como articular o crédito com a produção? Como organizar a matriz energética? Como pensar a construção de tecnologias e inovações para uma outra economia que virá? (E a galope, correndo por fora, há o rosto do desafio ecológico do planeta).

Pois é dentro disso que a economia brasileira tem que se reformatar. A questão mais decisiva só vai ser respondida mais adiante: que modelo vai funcionar na economia mundial? O que significa pôr uma interroga- ção sobre a nossa inserção na nova divisão do trabalho. Como esta não está clara, a estratégia ainda é parcial, há que ter calma. O velho Pinheiro Machado tinha a sua sabedoria: “Nem tão depressa que pareça acinte, nem tão devagar que pareça medo”. Mas a carruagem tem que andar. E o movimento preparatório vai-se sobressaindo: trazer o Estado para orientar a economia, manter e ampliar as atividades que estão voltadas para o mercado interno e preparar, com cuidado, um caminho no nevoeiro do mercado externo. Já podemos ver nítido: oEstado, lentamente, cautelosamente, está-se transformando, alinhavando sua nova vestimenta.

Em primeiro lugar, cabe mudar a dinâmica da economia. Os investimentos autônomos do Estado terão que puxar os investimentos privados, sejam nacionais, sejam internacionais. Daí o papel fundamental do PAC e do BNDES. Para apoiar os investimentos públicos, há uma carta na manga, o famoso superávit fiscal. Se ele for diminuído em 1% ou 1,5% do PIB, além de sobrar um colchão de 3% ou 3,5% de superávit, a força desses recursos, postos prioritariamente no investimento, poderá deter a queda do produto, e cresceremos, então, entre 2% ou 2,5%. Junto com a China e a Índia, seremos um dos poucos países do mundo a crescer positivamente. Na certa, o investimento privado, requerido a partir da indução do investimento público, terá apoio do BNDES. Todavia há reformas estruturais no horizonte. Para começar, uma nova postura na política econômica, com o Estado comandando o processo. Nessa direção, podemos vislumbrar uma reforma no sistema financeiro, num novo modelo de regulação e concorrência, com redefinições do Banco Central e da posição dos bancos públicos (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) e dos bancos privados, nacionais e estrangeiros. Conforme o agravamento da crise, outros pontos devem aparecer, como controles, explícitos ou não, da taxa de juros, da taxa de câmbio e apoios à exportação. De qualquer forma, o que está em desdobramento, o que está em marcha no Brasil é a substituição de um modelo financeiro de acumulação para um modelo produtivo, com reformulações notórias no papel das finanças e na concepção de uma nova integração no cenário internacional. O bolo já está ingressando no forno; é só acompanhar a tendência das tramas e dos combates.

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