A crise internacional e o destino das exportações gaúchas

A crise econômica internacional, que eclodiu no final de 2008 e cujos reflexos se fazem sentir até hoje, repercutiu mais fortemente, no comércio mundial de mercadorias, no ano de 2009. Em dólares correntes, a queda do valor das exportações mundiais entre esses dois anos foi de 22%. A tabela abaixo traz a participação percentual de blocos econômicos selecionados nas exportações gaúchas, entre 2005 e 2008 e entre 2009 e 2012, ou seja, os quatro anos anteriores e os quatro posteriores à eclosão da crise. Para esses cálculos, foram considerados valores constantes — dólares de 2012.

Observando-se os dois subperíodos apresentados na tabela, destaca-se a inversão na representatividade dos blocos liderados pela China e pelos EUA nas vendas externas do RS. Enquanto o primeiro eleva sua participação de 10,12% para 18,26%, a do NAFTA cai de 16,11% para 9,72%. Ainda que envolvendo valores bem menores, observa- se, entre a Liga Árabe e a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), um comportamento semelhante ao dos dois blocos citados anteriormente: enquanto a Liga Árabe elevou sua representatividade nas vendas externas do RS de 5,36% para 7,14%, a CEI a reduziu de 5,41% para 3,19%. Os demais blocos econômicos apresentaram pequenas variações, para cima, de suas participações nas exportações do Estado. O conjunto desses mercados, por sua vez, aumentou sua representatividade entre 2005 e 2008 e 2009 e 2012: de 83,21% para 85,89%.

Cada um desses blocos compra, numa maior proporção, determinados produtos do RS: por exemplo, considerando o subperíodo 2005-08, vê-se que a China importou, principalmente, soja em grão; a União Europeia, tabaco e calçados; o Mercosul e o restante da América Latina, produtos da indústria metal-mecânica (máquinas agrícolas e veículos e suas partes); o NAFTA, calçados e tabaco; a Liga Árabe, carne de frango; a África Subsahariana, arroz e tratores; e a CEI, carne suína.

A redução nas participações do NAFTA e da CEI esteve atrelada a diversos fatores. No caso do NAFTA, eles refletiram no comércio de vários produtos, enquanto, no caso da CEI, basicamente no de um só, o da carne suína, que teve redução de vendas, não só pela crise nos países da região, como também pelo embargo russo, imposto em meados de 2011. Já nas exportações para o NAFTA, chama atenção a continuidade na queda das vendas de calçados: a preços de 2012, as exportações de calçados para esse bloco econômico caíram de US$ 877 milhões em 2005 para US$ 74 milhões em 2012.

Por outro lado, à exceção do Mercosul e do restante da América do Sul — concentrados na aquisição de bens da indústria metal-mecânica —, todos os demais blocos que tiveram acréscimos de participação nas exportações do Estado o fizeram, fundamentalmente, pelo crescimento na compra de produtos agropecuários. Entre 2009 e 2012, de tudo que a China comprou do Estado, 58% foi em grãos de soja. A participação de farelo de soja e tabaco nas compras da União Europeia foi de 43%. Já, do que a Liga Árabe e a África Subsahariana importaram, respectivamente, 52% foi carne de aves e 30% foi gasto com arroz.

Dessa forma, analisando-se as exportações gaúchas, antes e depois da crise do final de 2008, pode-se perceber um redirecionamento das vendas para a Ásia e para a África, com significativa preponderância de produtos intensivos em recursos naturais (soja, carne de frango, tabaco e arroz). Aconteceu o que seria de se esperar: dada a sua baixa elasticidade-renda da demanda nos países desenvolvidos, essas commodities possuem a vantagem de resistir melhor a crises internacionais. Por outro lado, a urbanização e o crescimento da renda em regiões menos desenvolvidas, como a China e a África, acentua a demanda por alimentos.

Embora agregando pouco valor ao produto, a expansão da atividade agrícola tem gerado estímulos importantes em outros setores, como o de biotecnologia e o de maquinas de precisão. Dado que, no RS, a fronteira agrícola está esgotada, a continuidade das exportações depende, em boa medida, da evolução tecnológica em toda a cadeia agroindustrial, inclusive na capacidade de armazenagem de recursos hídricos, tão necessária nos frequentes períodos de estiagem verificados no Estado. Ademais, o desenvolvimento da cadeia como um todo não só garante a oferta de produtos agropecuários ao resto do mundo, como também facilita a venda de outros bens. Destaca-se aqui a venda de máquinas e implementos agrícolas para a África, região onde a agricultura comercial está em expansão.

A crise internacional e o destino das exportações gaúchas

Compartilhe