A crise financeira e a situação do crédito interno

Uma das grandes preocupações do Banco Central brasileiro (Bacen) com o agravamento da crise financeira global a partir de set./08 foi a possível queda do volume de crédito na economia. Entretanto dados de novembro, divulgados pelo Bacen em fins de dezembro, mostram que, até aquele mês, não houve uma redução significativa do crédito, como se temia, mas, sim, uma pequena queda no ritmo de expansão do mesmo (considerando mês contra mês). A soma das carteiras de crédito das instituições financeiras chegou a crescer 2,8% em out./08 (mês em que a crise se mostrou mais intensa), com relação a setembro do mesmo ano, e 2% em novembro, em relação ao mês anterior.

Assim, não houve parada súbita da expansão do crédito, mas sinais claros de sua desaceleração. Isto é possível de se constatar através das concessões de empréstimos registradas em outubro de 2008, que somaram R$ 157 bilhões, valor 3% abaixo dos R$ 162 bilhões observados em setembro do mesmo ano. Em novembro, as concessões de empréstimo atingiram R$ 142 bilhões, ficando 9,5% abaixo dos R$ 157 bilhões registrados no mês anterior desse ano. No acumulado do período – set.-nov./08 (período forte da crise) -, as concessões caíram 12,21%. O normal é as concessões aumentarem nos últimos meses do ano, pois é quando as empresas tomam crédito para formar estoque para o fim do ano e as famílias ampliam o consumo. Note-se, por exemplo, que, em set.-nov./07, as concessões haviam aumentado 13,52%.

A crise financeira e a situação do crédito interno

Apesar de o crédito bancário como um todo não ter tido um mau desempenho a partir de set./08, alguns segmentos do mercado tiveram retração importante no período (set.-nov.). É o caso, por exemplo, dos financiamentos para a aquisição de veículos, que encolheram 2,85%, no acumulado de set.-nov./08. O volume caiu porque os bancos pequenos e médios, bem como as instituições financeiras ligadas às montadoras de veículos, estão entre os mais atingidos pela crise da liquidez. Destarte, essa modalidade de crédito já vinha perdendo espaço para o leasing nos últimos meses, que, dentre outras vantagens, é isento do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF). Mas, mesmo assim, para a modalidade de leasing para automóvel, foi registrada uma forte desaceleração, tendo em vista ter tido um crescimento acumulado, em set.-nov./08, de 2,86% e, nos três meses anteriores a esse período, uma expansão acumulada de 12,6%.

Os efeitos mais fortes da crise internacional sobre o mercado de crédito foram sentidos nas taxas de juros cobradas pelos bancos, que, em valores médios, saltaram de 40,4% a.a. em setembro, para 44,1% a.a. em novembro. A maior parte dessa alta se explica pela ampliação das margens das instituições financeiras, ou melhor, o chamado spread, que passou de 26,4 pontos percentuais em setembro para 30,3 pontos percentuais em novembro. Essa forte elevação do spread reflete o cenário de incertezas provocado pela crise, a qual torna as instituições financeiras mais conservadoras ao concederem crédito. Por outro lado, por enquanto, não está incorporado nos spreads um aumento das taxas de inadimplência, pois o seu indicador permaneceu praticamente estável no período set.-nov./08, oscilando entre 4,0% e 4,2% de um mês para o outro. De qualquer forma, a crise elevou o risco de um aumento de desemprego e de queda da renda, que, em tese, poderão levar, no futuro, a um aumento da inadimplência.

Compartilhe