A crise financeira e a grande depressão

A economia avança para uma crise maior, uma grande depressão, por causa do entrelaçamento das crises produtiva, financeira, social e do Estado. Há uma solidariedade dramática entre essas situações, desde o encaminhamento da solução da queda da Bolsa em 2001 e do colapso de toda a economia em 2007/2008, que levaram as sociedades norte-americana e mundial para o impasse dos dias que correm. A razão dessa tendência ampara-se em duas características da dinâmica econômica, centrada nos Estados Unidos. A primeira: o desenvolvimento do modelo financeiro de acumulação. Nele, temos as finanças definindo toda a estrutura da economia, inclusive subordinando a produção aos seus desígnios. E como raiz voluptuosa, as finanças também dominaram o sistema político e, por consequência, o aparelho governamental e o Legislativo. Por essa razão, surge a segunda característica: a abdicação do Estado do seu poder de comandar a sociedade e o capital. Resultado: um processo de desregulamentação das finanças, amparado no princípio devastador de autorregulação do sistema financeiro. E como o Estado estava praticamente de férias no momento da crise de 2007/2008, ele ficou imobilizado para introduzir no pacote de salvação dos bancos a retomada do gasto público na esfera da produção, o que daria uma ajeitada no imediato e colocaria o barco econômico na direção de um novo padrão de acumulação.

A crise de hoje também é um momento de passagem, de transição. Um grande problema é, sem dúvida, o enlace que têm os norte-americanos com a Europa, cuja economia alimenta o mesmo modelo financeiro e o mesmo processo de desregulamentação. O efeito culminou num envolvimento agressivo e intenso de Estados e bancos, com algumas nações já sucumbindo e soçobrando, como Grécia, Portugal, Irlanda, Islândia. Estão na borda do abismo: Espanha e Itália; e um pouco mais afastados: Inglaterra e França. Distantes do precipício, só Alemanha e a emergente Rússia. Se os Estados não forem salvos pelos bombeiros de sempre, FMI, Comunidade Europeia e Banco Central Europeu — e há possibilidades de fracasso —, os bancos ingleses e alemães e franceses cairão, e os Estados serão arrastados para a depressão, inclusive com um “apagão” nos EUA.

Vê-se que o nervo fremente da economia é, sem dúvida, o Estado norte-americano e os europeus. De um lado, temos certamente a impotência de uma posição keynesiana de recuperar a economia por meio de gastos na produção e em novos setores dinâmicos, como a nova tecnologia de comunicação e informação. De outro, essa inaptidão está vinculada ao domínio político do Estado, já que o capital financeiro, hegemonizando o poder público, impede, igualmente, uma política econômica centrada numa concepção de longo prazo, ou seja, na mutação da estrutura produtiva, com mudança da posição das finanças privadas e públicas.

Olhando agora pelo avesso dos Estados Unidos e seu modelo de acumulação financeira, o analista percebe que ele só pôde se espichar e florescer perfeitamente, só e somente só, com entrada da China. Ela, então, foi o receptáculo de um processo de deslocalização de empresas multinacionais, que encontraram no País as condições de fornecimento de produtos de exportação, para atender à necessidade da baixa do custo de reprodução da mão de obra norte-americana. Com isso, a China cresceu, botou o Estado como protagonista e subiu a sua produção e criou um modelo de desenvolvimento produtivo fantástico. E, para que o modelo financeiro norte-americano-europeu progredisse, houve uma função ampla da China, que, além de ofertar bens de consumo para a família norte-americana, viabilizou, graças aos saldos do comércio exterior, a manutenção dos déficits do US Treasury, comprando os títulos mais seguros do planeta.

Esse modelo parecia ser o melhor dos mundos, o da alegria do carrossel financeiro. Baseava-se no dólar forte, gestado em 1979, e que vigora até hoje e que, no momento, está em crise. Foi nesse período que surgiu a “moeda financeira”, após o abandono, em 1971, do dólar-ouro. No curso da alteração, inventou-se uma moeda com o suporte no Estado norte-americano. Um dos seus órgãos, o FED, Banco Central independente, emitia o dinheiro e fixava a taxa básica de juros da economia. E o Tesouro, instituição do Executivo, assegurava a realidade da função de reserva de valor dessa moeda, através da valorização dos seus títulos públicos. Com isso, o dólar, dado o poder global dos Estados Unidos (econômico, político, militar e cultural), ultrapassou o âmbito da nação e tornou-se moeda mundial. Pois é aí que se compreende a extensão da crise, quando a China propugna a criação de uma nova moeda, denunciando o dólar, mas não dando a sua moeda como alternativa, já que o yuan, moeda administrada, não tem capacidade de se autonomizar.

A crise desses 30 anos, onde se deu a produção dos 20 anos da Carta de Conjuntura FEE, é aguda porque o modelo financeiro ficou suspenso no ar. E o conjunto de países emergentes, liderados pela China, não conseguiu, por si só, reaver a plena chama da geoeconomia e da geopolítica. Para tirar o mundo do atoleiro, não basta recuperar a produção e as finanças correntes, tem-se que canalizar as forças sociais para um novo padrão produtivo, com novas indústrias e novos produtos e novas finanças. Isso vai requerer novos Estados, nova política econômica e nova moeda, muito planejamento e muito investimento e um desenvolvimento econômico apoiado na geopolítica da bipolaridade EUA-China, com a presença da multipolaridade cortejante do Brasil, da Índia, da Rússia, da África do Sul, da Coreia, etc. O velho decompõe-se visivelmente com resistências, contudo o novo mal apontou no horizonte o seu rosto de futuro.

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